SERPENTE DE EVA

192 29 1K
                                        

A nossa caravana entrou em uma cidade que tinha a arquitetura um tanto parecida com a daquela região onde habitávamos na Transilvânia. Passamos por uma ponte de arcos e adentramos no espaço urbano. Ali os moradores que tinham origem local nos encaravam sem nenhum pudor, enquanto os estrangeiros ignoravam sem titubear. Notava-se à distância que era um importante centro comercial da região. Carroças entravam e saíam estufadas de mercadorias.

Meu avô encontrou com um de nossos homens que ele tinha enviado na frente, para se adiantar e fazer um reconhecimento do local. Era um dos batedores da nossa comitiva. Ele ficou responsável por encontrar pousada para nos abrigar na cidade.

Seria difícil achar uma pousada que acomodasse a comitiva toda e ainda tivesse lugar para os cavalos e as carruagens, mas o batedor cumpriu sua missão êxito. Felizmente não viajamos com mercadorias, apesar de saber que meu avô faria negócios por ali.

No centro da cidade, em meio à agitação das ruas de terra, onde se via muita gente estrangeira, principalmente turcos, desci da carruagem com o auxílio de Valenius. Observei o lugar, o ar com uma mistura de cheiros envolvendo comida, suor de cavalo, estrume e outros aromas ou odores. E, claro, tinha meu próprio cheiro, porque eu não tinha tomado banho desde que saí do Castelo Merak. Para completar o desconcerto, ouvia-se muito barulho por todo canto. Eu não estava habituada.

— Disponho-me a tirar a vida alguém por um banho. — Comentei com Valenius enquanto esperava meu avô organizar os homens.

Era óbvio que, depois de todo aquele esforço, eles desejariam ir para a taverna mais próxima, a fim de se divertir e descansar. Meu avô os dividiu em dois grupos para que pudessem nos proteger sem perder o turismo local.

Quanto a Valenius, ele não teria folga. Sua função era ser a minha sombra. Fiquei arrebatada por um sentimento de piedade quando o vi observando o grupo de homens que saiu feliz para beber. Para aumentar a decepção do mancebo, diziam ainda que os vinhos de Chisinau eram divinos, de grande fama, assim como todos os seus produtos naturais.

— Não se preocupe, Valenius. Vamos arranjar uma garrafa para você. — Pisquei e sorri, na tentativa de parecer simpática, mas ele ignorou. — Se bem que... você tem uma idade um pouco imprópria para fazer carreira como beberrão convicto.

Meu avô chamou pelo meu nome, então deixei de implicar com Valenius.

— Sim. — Respondi e me aproximei.

— Você vai dividir o quarto com Valenius. — Ele anunciou.

— Mas vovô... — Franzi o cenho para protestar.

— Não temos dormitórios individuais e esse é o trabalho dele. Por acaso você não confia no trabalho de Valenius? — Questionou com uma malícia assustadora.

— Confio! Eu apenas não me sentirei à vontade. — Olhei para o meu guarda antes de cochichar com uma mão aberta tapando a minha boca: — Ele nem conversa.

— Melhor assim, pois nunca vai contar os seus segredos. — Vovô sorriu com a boca cheia de dentes.

— Aposto que, para você, ele conta. — Emiti um muxoxo aborrecido.

— Talvez sob tortura, mas o que a minha neta teria de tão grave para esconder que eu precisaria torturar um menino no intuito de arrancar tal informação? Seus segredos devem ser tão ingênuos que por três moedas de prata ele entregaria. — Vovô afirmou, convicto.

— Que injusto! — Reclamei batendo um pé no chão, com força.

— Pague mais ao seu confidente e ele nunca lhe entregará. — Jis se intrometeu, surgindo atrás de nós.

Ana Merak - Dever e HonraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora