ALGUÉM NO HORIZONTE

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Já fazia um mês que Valenius tinha partido. Ana estava magra e abatida. Os ossos despontavam em seu corpo que antes era tão saudável. As olheiras escuras ressaltavam, no rosto carregado de uma palidez doente. Às vezes comia demais e vomitava, outras vezes não comia nada e parecia letárgica. Comecei a levar comida e chá para a torre, onde também coloquei outra poltrona. Lado a lado encaramos a nossa triste sina. Com coragem. Doía muito ver Ana com olhos abatidos e incansáveis, fitando o horizonte. Às vezes eu me via refletido neles, quando estavam brilhantes de algum choro recente. Minha face tão séria enquanto era tomado pelo medo de morrer a qualquer momento e deixar a minha filha sem ninguém para cuidar dela.

Por ela eu sobrevivi tantos anos. Porque a amava e tinha sua companhia. Enquanto a via viver uma maldição parecida com a minha, eu odiei um pouco mais a vida. Se eu pudesse escolher, não haveria sofrimento ou dor, mas eu não podia.

— Coma mais um pouco, Ana. Está bom. — Incentivei com alguns pães recheados em um prato estendido na direção dela.

— Não posso, pois estou cheia. — Ela respondeu com um sorriso triste.

— E os planos para a estrada? Já fez a reunião? — Perguntei, tentando desviar os pensamentos para algo prático.

— Estou buscando forças para reunir a todos, mas o restante vai bem. — Ela resumiu, sem disposição para falar sobre negócios.

Estava sucinta naquela tarde.

— Você tem tido pesadelos? — Eu sabia que sim.

— Muitos, mas não me lembro bem. Sei que são sufocantes. — Ana contou com pouca vontade. — Às vezes parece que estou morrendo.

— Quer dormir no meu quarto? — Ofereci. Podia ser uma maneira de ela se sentir protegida e acolhida.

— Não é preciso, pai. Estou bem. — Ela apertou a minha mão e me deu um sorriso triste. — Ainda consigo fazer tudo com maestria.

— Você se parece demais comigo. Parece ser minha filha. — Acusei. Ela sorriu levemente, com um brilho genuíno de orgulho. Meu coração afundava no peito enquanto eu contemplava sua face sem vivacidade. Minha maldita impotência me matava aos poucos. — Trabalhe menos.

— Não tire meu propósito de vida. — Ela reclamou.

— Pensei que seu propósito era cuidar de gente desfavorecida. As aulas que você dá para as crianças são muito comentadas. Elas amam a sua presença. — Falei para alegrá-la, mas era verdade. Em todo canto elogiavam a minha filha por sua postura e acessibilidade.

— Crianças... — Ana suspirou profundamente e olhou para o chão. Então ela involuntariamente passou uma mão sobre o ventre.

Eu sabia interpretar a minha filha. Fui capaz de ler seus pensamentos naquele momento. O arrependimento amargo e a vontade de gestar. Os filhos não sabem o quanto sabemos sobre eles. Ana não tinha a menor ideia do quão consciente eu sempre fora sobre si e cada ato seu.

Ana deu um pulo na poltrona e estreitou os olhos. Havia alguém diferente vindo ao longe. Alguém chegando a pé. Ela estava surpresa e agitada. Ia sair correndo pela porta, mas segurei sua mão.

— Espera. Não é ele. — Avisei. Quebrei sua expectativa nascente para que a frustração não fosse maior.

Depois de tanto tempo esperando por Lira, eu entendia um pouco das figuras conhecidas. Ana murchou enquanto olhava, mas ainda estava curiosa.

De repente a sombra piscou e apareceu mais perto. Quilômetros mais próxima. Ana tomou um susto e eu também.

— Aquela é...?

Quando a sombra piscou de novo e apareceu entrando no castelo, tive certeza e fiquei perplexo. Ana estava menos surpresa enquanto via Pricila entrar. Pela primeira vez em muitos dias vi um largo sorriso genuíno no rosto de Ana.

Ana Merak - Dever e HonraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora