VELKAN MIHAI

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— Eu, absolutamente, não tenho tempo para essas bobagens, Ruxandra. Já falei, apenas arranje alguém que eu me caso. — Eu não consigo conceber casar com outra pessoa que não seja a minha irmã, mas ela insiste, diz que vai ser bom para nossa fortuna.

— Eu te amo, Velkan, no entanto, é preciso fazer esse sacrifício visto que não restou muito depois que nossos pais morreram. Os cofres Mihai estão quase vazios. — Ela suspira.

Os cabelos louros e lisos de Ruxandra estão arrumados em um coque no topo da cabeça, deixando todo seu rosto à mostra. Os olhos verdes transmitem preocupação.

— Ela é jovem demais, Ruxandra. Eu já tenho quase o dobro da idade dessa menina Merak. Além disso, acho que mirar em alguém tão super protegida é um erro. — Insisto. É preciso trabalhar com a razão.

— Quanto mais jovem a esposa, mais inocente. É um ponto alto para nós, que poderemos viver em paz. — Ruxandra argumenta.

— Devemos apenas nos casar e ter nossos filhos. Mihai puros. — Aproximo-me de Ruxandra e roço em seu pescoço com a ponta do nariz.

Ela se afasta após rir sentindo cócegas.

— Sossegue, Velkan! Concentre-se em ganhar esse coração. Correm boatos de que ela é inteligente, mas acredito que são exagerados. — Ruxandra diz tudo olhando nos meus olhos iguais aos seus e com a mão espalmada apoiada no meu peito.

A carruagem para no pátio do grande Castelo Merak. Nos tempos áureos dos Mihai, meu pai tinha tentado tomar essas terras, porém Barakj resistiu. Descemos e somos recepcionados por um homem alto de sorriso fácil.

— Senhor Merak, faz já algum tempo. — Cumprimento.

— E você tem razão, senhor Mihai. — Ele então olha nos olhos de Ruxandra e sustenta, depois beija as costas da mão dela. — Está muito bela, senhorita Mihai. Uma flor fresca. Acaso já tem pretendente?

Ela cora e eu sinto ódio ciumento queimar o meu coração. Maldito Barakj, seduzindo as mulheres por onde passa, mesmo sendo um velho caquético. Talvez não tão caquético porque ele é forte, tem poucas rugas acentuadas e mantém modos corteses de dar inveja.

— Quanta gentileza, senhor. — Ruxandra quase canta as palavras como um pássaro.

— Sejam bem-vindos ao castelo. Vamos entrando. — Barakj convida e se põe a andar. Acompanhamos. — Vou pedir que não reparem na bagunça do salão, pois a minha neta está pintando. E também conto com a compreensão de vocês porque não podemos ter um encontro longo com ela, visto que está se adaptando à sua nova mestra.

— Não se preocupe, senhor. Mais importante do que ser longo, é ser proveitoso. — Afirmo.

Eu só quero ir embora. Não me apetece ficar observando o rosto de uma criança.

Entramos em uma sala onde está posta a mesa do chá. Há um homem de olhos verdes e uma jovem de cabelos castanhos. Ela está olhando para um tabuleiro no qual joga, mas volta o olhar para mim. Sua face é pálida em contraste com os olhos e os cabelos. Os traços muito suaves, angelicais. Ela se levanta e sorri. É uma menina muito graciosa, de fato. Um mimo de pessoa.

Todos somos apresentados. O olhar do pai dela sobre mim varia entre raiva e asco. Quero rir pela ironia de ser hostilizado em um compromisso social no qual nem queria estar. Ruxandra usa suas estratégias para deixar as pessoas interessadas em nossa família.

Observo Ana. Por debaixo de toda a sua educação ela está impaciente. Ela claramente não vê a hora de sumir daqui. Sorrio miúdo com meus lábios junto à xícara na qual me serviram chá. Também estou aqui contra a vontade, mas faço tudo por Ruxandra.

Mal dá meia hora de conversas sem sentido algum e Ana pede licença para se retirar. Só então observo o guarda com meia armadura que esteve posicionado em um canto escuro. Ele tem a idade próxima à de Ana e a acompanha.

— É o guarda pessoal dela. — Barakj comenta ao ver que o observo demais.

— Tem um físico invejável, mas parece muito jovem. — Pontuo.

— É melhor que seja assim, fica mais fácil ela aceitar a proteção e companhia dele. Ana tem um gênio complexo. — Explica. Barakj certamente não quer que nossa família proponha à neta dele, pois está contando defeitos.

Evito falar que duas pessoas muito jovens e próximas podem acabar em um romance porque seria ofender gravemente a honra dos anfitriões. Mas é o que penso. Talvez ela se deite com ele por toda a vida e se case com algum velho importante para garantir alianças. De todo modo é interessante conhecer Ana e entender os motivos de as notícias estarem correndo com tamanha rapidez.

Ana Merak - Dever e HonraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora