A Árvore ficava nas montanhas, em um lugar de difícil acesso até para alguns seres mágicos. Eu tinha saído do castelo antes do alvorecer do dia, para voltar o quanto antes. Corri pelo caminho cheio de neve branca onde o sol batia, criando um forte reflexo. Passei pela floresta nua e observei os arredores, tomando todo o cuidado para não ser seguido. Ninguém estava por perto. Tornei-me lobo ali mesmo, no limite entre a floresta e a montanha, e comecei a correr.
Eu me sentia muito leve em quatro patas. Também tinha sentidos absurdamente aguçados e ouvia longe, o que era confuso. Muito confuso. E muito útil também. Saltei por sobre rios gelados até chegar na frente de uma rocha específica. Encarei-a de frente e saltei com leveza. Com o pulo, atravessei por uma abertura nas rochas, que era uma armadilha caso alguém estivesse me seguindo. Cheguei na ponta de um penhasco, onde o caminho acabava de vez, porque não havia mais para onde ir. Saltei do penhasco, pois sabia o caminho por onde deveria descer nas rochas. Ali por perto ficava a caverna do clã. Desacelerei quando cheguei no fundo do abismo, em um vale verde onde sempre era primavera. Sempre, independente das condições fora daquele recanto. Borboletas dançavam, se mostrando belas e coloridas entre a vegetação verde e saudável. No centro de tudo havia uma gigantesca árvore que assumia várias formas de acordo com seu desejo. Ela tinha vida e magia.
Alguns diziam que era uma deusa, que tinha se resolvido por descansar na terra.
Voltei à minha forma humana e caminhei até a árvore. Ela estava apenas verde, cheia de galhos longos com folhas miúdas, formando uma copa frondosa. Seu caule, longo e grosso, tinha casca lisa. Quando éramos crianças, pegávamos um pedaço do caule para esculpir uma flor. Era uma tradição. E escrevíamos os nossos nomes no vão deixado pela retirada da casca. Eles desapareciam depois, tanto nossos nomes como aqueles vãos. Quando nos apaixonávamos, dávamos a pequena escultura para a pessoa de nossa afeição. Essa escultura era feita daquele naco de árvore que tínhamos a honra de retirar. O nosso nome ressurgia na Árvore quando isso acontecia, e, se a pessoa nos amasse em retribuição, o nome dela aparecia junto ao nosso. Era isso o que eu ia ver, se o nome de Ana estava junto ao meu. Conforme me aproximava, sentindo um gelo percorrer a minha coluna, de nervoso, a árvore começou a florir. Fui tomado por êxtase, uma felicidade além da imaginação. Eu poderia dançar e cantar eternamente ao redor da árvore. Ela começou a florescer, com flores vermelhas da cor do sangue. As flores tinham sete pétalas e as pétalas tinham formato de coração. Aos poucos toda a copa foi tomada pelas flores e elas começaram a cair sobre mim, como uma grande benção. Para cada Luppus a imagem era diferente.
Antes de ver no tronco eu já sabia, mas quando li nossos nomes entrelaçados, eu confirmei com a felicidade mais arrebatadora do mundo, que o amor era o nosso destino. Senti alívio e certeza. Éramos feitos um para o outro. No início eu não quis admitir. Cheguei a pensar que seria Tenebris o amor de Ana. Aquilo amargou o meu coração como jamais poderia imaginar. Então ela teve seus momentos com outras pessoas e eu me sentia torturado a cada vez, lutando para não demonstrar, para ignorar. Foi um tempo que não passou, apesar de correr. Então ali estava eu, vendo os nossos nomes entrelaçados, escritos com letras exuberantes. Valenilupus e Ana Merak. Eu sabia que não seria Tenebris quando o nome dele se enroscou ao de Solis, cumprindo a visão do oráculo.
Caí de joelhos, chorando de alegria. Eu poderia explodir de alegria ali mesmo.
Além das flores, houve uma derramada de pó cintilante sobre mim, elevando o meu espírito a um lugar onde ele ainda não tinha chegado, e onde jamais iria se não fosse pela força daquele grande amor. Para a minha imensa sorte, Árvore sempre sabia. E eu, um tolo mortal, só tinha gratidão por aquilo.
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Ana Merak - Dever e Honra
FantasiAna Merak descende de uma família que se encontrou com a magia em condições adversas. A mãe de Ana era humana, mas foi recrutada para lutar pelo equilíbrio do mundo. Em meio ao caos da vida, a prestigiada Lira Merak deu à luz suas filhas, e teve uma...
