Acordei muito cedo, antes do nascer do sol. Antes mesmo de todos despertarem. Abri os olhos devagar e a primeira imagem que vi foi Valenius sentado no banco, dormindo com a cabeça para trás, encostada na parede. Arrependi-me imediatamente por ter tirado ele do mínimo conforto para velar meu sono.
Levantei-me sentindo o frio da manhã e andei até ele. Com cuidado, coloquei meu cobertor sobre si, abri a porta devagar para não fazer barulho e saí do cômodo. Havia muita neblina, ofuscando a visão, mas um dos guardas de meu avô estava na distância certa para que eu o visse, e vice-versa. Acenei para ele e cruzei os braços para me abrigar um pouco do frio. No fundo eu só queria me preparar para encarar o meu pai. Era difícil admitir que a saudade me trucidava aos poucos. Por mais acolhedor que fosse aquele lar, não era o meu lar. Não. Eu não tinha a mesma liberdade e nem os mimos de donzela bem nascida. Ao menos havia uma lição naquela situação, que era ampliar meus horizontes.
O sol subia aos poucos, dissipando a névoa. Ouvi barulhos dentro da casa. Os moradores acordavam aos poucos, para a lida diária. Escutei os barulhos de cascos e rodas cortando o silêncio sagrado daquela manhã tranquila e presumi que fosse a minha carruagem indo me buscar. Eu estava certa porque logo ela apareceu no campo de visão. Era cedo ainda, contudo, provavelmente a minha família estava ansiosa.
A guarda se reuniu na frente da casa, junto à carruagem que parou a cerca de quinhentos metros de distância porque fiz sinal para que não se aproximasse mais.
Abri a porta devagar e entrei com cautela. Valenius já estava acordado arrumando a sala. Parecia mal dormido, como realmente estava, e um pouco triste também.
— Ah! Vi que a sua carona já chegou, filha. — Lunais colocou as mãos na cintura e apesar de estar falando comigo, olhava para Valenius.
Ela estava triste porque ele também iria.
— Agradeço imensamente pela estadia, senhora Luppus. Vou com seu vestido e devolvo ele lavado o mais breve possível. — Avisei enquanto Fortarius aparecia na sala.
Ele estendeu para mim a sacola de pano onde estavam as minhas próprias roupas.
Peguei com gratidão e fiz uma reverência para eles.
— Vou esperar do lado de fora. — Falei, já abrindo a porta, no intuito de dar alguma privacidade.
— Tome ao menos o desjejum. — Lunais falou com o filho.
— Não se preocupe, mãe. O castelo sempre tem muita comida pronta. — Ele respondeu.
Terminei de sair da sala e andei alguns passos, sentindo o pesar da despedida. Parecia-me que aquelas poucas horas foram anos de vivência nova. Eu poderia sobreviver como uma camponesa? Do meu próprio labor? Era provável que não naquelas condições. O que eu poderia fazer pelo nosso povo quando fosse a minha vez de administrar?
A família Luppus saiu do lar. Valenius estava vestido com sua meia armadura, o uniforme de trabalho. Lunais me abraçou e deu algumas recomendações sobre as minhas mãos e minha saúde. Prometi que cuidaria bem de mim e de Valenius também. Foi triste ver a dor da separação nos olhos dos pais de Valenius, pois eles claramente se sentiam mal em ficar tanto tempo longe dele.
Entrei na carruagem primeiro, seguida de meu guarda pessoal. O carro se moveu enquanto eu via pela janela o afastar pictórico da paisagem fresca onde os raios de sol incidiam, trazendo o calor de um novo dia. Um casal amoroso e abraçado pela cintura dava adeus a seu único filho e os pássaros cantavam enquanto o orvalho se desfazia.
A passagem pelos campos foi diferente para mim. A pequena comitiva formada por guardas e a carruagem chamavam a atenção de quem já começava a trabalhar. Quando olhava para todas aquelas pessoas, inclusive as crianças, eu conseguia sentir nas minhas próprias mãos o peso das ferramentas e a dor de um dia de trabalho. Era incômodo.
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Ana Merak - Dever e Honra
FantasíaAna Merak descende de uma família que se encontrou com a magia em condições adversas. A mãe de Ana era humana, mas foi recrutada para lutar pelo equilíbrio do mundo. Em meio ao caos da vida, a prestigiada Lira Merak deu à luz suas filhas, e teve uma...
