APRENDENDO A DIPLOMACIA

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Alguém bateu na porta e meu pai autorizou a entrada. Vovô adentrou trazendo um pacote debaixo de um de seus braços; estava embrulhado em papel amarelado e amarrado com barbantes grossos. Era um grande pacote.

— Alegro-me em saber que cessaram a guerra. — Falou ao nos ver abraçados.

— Não posso descrever o quão ululante está meu espírito, velho seboso. — Papai me soltou para receber o pacote nos braços.

Vovô ficou parado com as mãos atrás das costas, olhando, visivelmente curioso, esperando para ver o que estava dentro do embrulho.

— Acho que não vou abrir por agora. — Papai pousou o pacote sobre a escrivaninha.

— Aaaaah... — Eu e meu avô reclamamos em uníssono.

Papai riu da nossa curiosidade. Naquela altura nós estávamos até mesmo parados na mesma posição, com um braço cruzado sobre a barriga e o outro na vertical com a palma da mão apoiando o queixo.

— Estou de galhofa com as vossas pessoas. — Ele sorriu matreiro. — Este pacote na verdade precisa ser aberto por Ana porque é para ela.

Mais do que depressa eu corri e peguei uma navalha na gaveta. Arrebentei os barbantes, sentindo a excitação da descoberta tomar o meu corpo, fazendo todos os meus pelos ficarem eriçados. O coração estava acelerado de expectativa. Quando rasguei o papel, vi que eram cortes de tecidos nobres. Vovô assoviou ao admirá-los.

— São os tecidos para o seu vestido. — Meu pai ergueu uma peça macia, com brilho singelo.

— Uau, isso certamente custou uma fortuna. — Passei a mão sobre outro corte que seria usado para o forro.

— Custou o que vale. — Meu pai definiu.

Fomos impedidos de continuar a conversa porque alguém bateu na porta aberta.

— Com licença, senhores. Venho informar que a família vizinha, Nectarius, espera por vocês no salão. — Solis disse com postura formal.

Era oficial, as visitas para me conhecer começavam a se suceder. E eu nem estava composta o suficiente para recebê-los, pois fui surpreendida por aquela circunstância. A primeira impressão era importante para todos os negócios, principalmente para os de nossa família.

— Papai, vovô, preciso me arrumar para esta ocasião! Eu não imaginava que estaríamos nessa temporada de recepções. Arranjem distrações para essas pessoas enquanto me componho. — Avisei, já saindo pela porta e arrastando Solis comigo. Ainda que eu não concordasse em me casar, e que estivesse cansada pelos últimos acontecimentos, não haveria fuga eterna para aquelas ocasiões. Era tempo de amadurecer um pouco e abraçar ainda mais quem eu era.

— Eles avisaram sobre a vinda hoje? — Perguntei para a minha amiga. Sua expressão demonstrava um pouco de apreensão.

— Sim, eles avisaram. — Solis esclareceu. — Nos próximos dias sempre teremos visitas de pessoas de boa posição social, porém, a mais estarrecedora é a do filho do príncipe. Toda a criadagem está em polvorosa porque é uma visita nobre. Nossa principal preocupação é que ele vai se hospedar porque é impossível tomar o caminho de volta no mesmo dia. Tudo nesse castelo e adjacências precisa estar mais do que impecável. Isso nem é uma ordem do seu avô ou do seu pai, mas é capricho nosso porque a propriedade reflete seu cuidado como herdeira.

Olhei perplexa.

— O que o herdeiro maior pretende com essa ação? Pensei que meu avô já tivesse recusado suas investidas matrimoniais. — Não que toda visita fosse nesse intuito, mas eu duvidava muito de que alguém tão nobre apenas quisesse conhecer nosso castelo.

— Ana... Não sei como dizer isso, mas você não tem mais tempo para recusar os pedidos. A partir de agora, tudo entra no âmbito da consideração. É bom que você leve a sério e trate cada gesto com cuidado porque situações mais graves podem acabar em duelos. — Solis asseverou enquanto entrávamos no meu quarto.

Dei uma rápida olhada em Valenius, pensando se ele conseguiria conter um duelo. Seria ridículo ter que chegar a tal ponto.

— Sei que tenho meus atrativos, mas daí a virar uma disputa em duelo, acho além das contas. — Falei enquanto tirava o vestido para colocar outro branco, com bordados de flores coloridas nas barras e nas mangas compridas. Sentei-me no banco da penteadeira para Solis me pentear. — Faça um coque simples com tranças nas laterais, por favor. Não podemos demorar.

Pedi e ela assentiu pelo reflexo.

— Você tem seus atrativos e é uma herdeira sem irmãos, com patrimônio interessante, para não dizer opulento. Em tese, seu marido poderia fazer bons negócios com tantas terras, apesar de ser apenas um sonho longínquo porque seu avô não vai deixar que controlem a sua herança. Além disso, fiquei sabendo que corre a fama de que você é bonita e as pessoas se interessam por isso. Elas querem ter a garantia de filhos atraentes para negociar mais fortuna. — Solis elaborou enquanto executava meu penteado e prendia um véu muito transparente no coque, com uma presilha de flor.

— Percebo que será cansativo. — Suspirei. — Há um bom tempo entre o agora e o baile.

— Imagine para nós, que vamos preparar tudo. — Pelo espelho pude ver a expressão de cansaço que Solis fez.

— Sinto muito, Solis. Se eu puder ajudar, apenas me chame. — Ofertei. Uma mão a mais para bater os ovos era sempre bem-vinda na cozinha.

— Não se preocupe conosco, apenas cumpra a sua função. E se possível, faça boas amizades para trazer prosperidade para nossas terras. — Ela sorriu pelo reflexo.

— Ainda não sei o que fazer com a minha influência, mas prometo trabalhar para melhorar as vidas de todos. — Segurei a mão dela, que estava sobre o meu ombro.

— Eu confio em você, Ana. — Ela sorriu.

Levantei da penteadeira, inspirei o ar com força e me pus no caminho para conhecer os Nectarius, nossos vizinhos mais próximos. Eu estava apreensiva, tensa e cheia de medo. Minhas mãos enfaixadas foram cobertas com luvas finas, o que era desconfortável, mas necessário. Andei pelos corredores com Valenius me seguindo e me direcionei para a sala onde era servido o chá. Só então percebi o quanto estava faminta porque não tinha comido ainda.

Era o primeiro ensaio para a minha vida adulta, para aprender a diplomacia da pior forma. 

Ana Merak - Dever e HonraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora