Cinco dias, esse foi o tempo que a princesa Erim demorou em nosso lar, como uma ótima hóspede. Recebi Dana e mais alguns curiosos durante aquele tempo. Natural, visto que as notícias correm, porém foi estranho porque ainda era inverno.. Fiquei desejosa de apresentar a Instituição Fēmina para a princesa, contudo não seria agradável sair no frio. Não era uma logística fácil e simples, exigia muitas miudezas extenuantes com as quais eu não queria lidar.
A princesa Erim era uma presença muito agradável, porém, misteriosa. Quando questionei como ela conheceu meu avô, ela apenas guardou silêncio por um tempo. Depois de uma dose de Palincă, disse:
— Eu era criança e gostava de bichos.
Era tudo o que eu tinha. Vez ou outra ela dizia algo marcante que me deixava profundamente reflexiva, como:
— Você escolhe o poder ou o poder escolhe você. Nas duas formas, o resultado é diferente, mesmo você sendo a mesma pessoa. — Depois dessas palavras ela olhou para o além, fixando seu olhar em um lugar muito distante, onde apenas seus pensamentos alcançavam.
Ruminei por horas quando, depois de um jantar, frente à lareira, ela falou sobre crenças.
— A verdade e a mentira são a mentira e a verdade de um começo diferente. — Quando olhei com dúvida ela ainda complementou: — Tudo só é assim porque está assim.
E quando perguntei seu pensamento sobre os clássicos, ela empertigou-se, parecia ofendida, mas falou como se dissesse para uma criança:
— Naturalmente amo as suas premissas. A maioria delas nasceu sobre o nosso chão. A cara delas é a nossa cara. A cara do meu povo.
Erim tocou meu mundo tão pequeno de uma maneira que eu não conseguia conceber. Ela expandiu forçosamente os meus horizontes, com ensinamentos generosos. Sua presença enriqueceu a minha vivência.
Jis teve longas horas de diálogo com ela. No começo ela não tinha apreciado a presença dele, pelo fato de estar ligado à Igreja Católica, mas depois de deixar de lado suas reservas, acabaram amigos.
Quando pedi, reticente e cheia de medo, para retratá-la em uma grande tela, ela se dispôs. Em troca queria um pequeno retrato seu, para carregar consigo.
Com ela posando em nossa mais bela e ornada poltrona, fazendo uso de todo seu aparato de ouro que quase a cobria por inteiro, olhar confiante e duas aias ao lado, no chão, portando pequenos instrumentos musicais, pude fazer um esboço de uma grande tela que seria um de meus maiores e mais prazerosos projetos. Depois pedi para ela escolher uma pose para seu pequeno retrato. Era impossível colorir em tão pouco tempo, então usei as noites para bordar um pouco da imagem. Era mais rápido, embora não fosse menos trabalhoso. As linhas não precisavam secar.
E naquelas noites eu não vi Valenius. Ele parecia misterioso, mais do que de costume. Mesmo quando estava relaxado, estava tenso. Olhava-me de forma amorosa e fortuita, porém distante. Eu tinha saudades de um homem que estava sempre ao meu lado. A distância é algo que não cabe em um simples conceito, como tudo aquilo que é aparentemente simples.
Na despedida, depois de sua passagem tranquila e sem incidentes, a princesa Erim agradeceu pela hospitalidade.
— Foi um prazer maior do que pensei, Ana Merak. Buscava um teto seguro e recebi amizade. — Falou enquanto pegava em ambas as minhas mãos.
— Não infle o meu orgulho, alteza. Sou incapaz de lidar com um elogio tão esplendoroso vindo do primor de sua figura. — Respondi com o rosto queimando de vergonha.
— Ana Merak, então, adeus para nunca mais. Sejas feliz. — Ela despediu-se.
Senti enorme tristeza quando fui confrontada com aquelas palavras. Ela voltaria por outra rota, por isso não a veria mais. Apesar de ela ter me convidado para visitá-la, dificilmente eu conseguiria fazer uma viagem tão longa.
— Faça boa viagem, alteza. — Falei com a voz engasgada e os olhos marejados.
Ela gesticulou e uma de suas aias trouxe uma caixa de madeira e a abriu frente aos meus olhos. A caixa era entalhada com símbolos de sua cultura e dentro havia pepitas de ouro e gemas brutas de pedras preciosas junto a uma areia dourada que eu jamais vira igual.
— Um presente pela hospitalidade, Ana Merak. Essa areia do deserto é dourada como a alvorada e o crepúsculo da minha terra. Quando estiver cansada ou farta, olhe para a areia e deixe ela te acalmar. — Falou. Sua voz fazia parecer que a areia era mais especial do que os tesouros. De fato, era um bem precioso, pois vinha do grande deserto e trazia memórias incontáveis em seus grãos. Mas não era mágica.
Solis pegou o presente e eu fiz uma reverência. Gesticulei e Valenius trouxe em uma almofada, o saquinho de veludo que eu bordei com o título e o nome da princesa. Dentro, estava o retrato da princesa, que eu tinha feito. Sua aia pegou e mostrou para ela, e a princesa pareceu positivamente impressionada.
A hora da despedida final chegou. A princesa subiu em seu elefante, plenamente descansado, e partiu para a continuação de sua história magnífica, da qual eu não participaria mais. Para mim, restou o vazio da anfitriã que tem sua casa cheia de vida e depois precisa encarar ela vazia. Ao menos eu tinha uma pintura para terminar. Era um propósito que ocupava a minha mente.
Entrei no castelo e vi recolherem os tapetes besuntados de perfume. Subi até meu quarto, exausta, tranquei o mundo do lado de fora. Respirei fundo, olhei ao redor, senti que precisava de algo que não estava ali. Eu também não sabia onde estava. Suspirei e fechei os olhos encarando o escuro.
Abri os olhos, abri a porta do quarto quando Solis ia bater. Ela ia falar, mas ergui a mão espalmada para que mantivesse silêncio. Andei pelo corredor até a porta que eu não abria há algum tempo. Abri com a mão trêmula e encarei o quarto de meu avô. Era ali que eu queria chegar. Havia o cheiro dele em todo lugar. Sentei em uma poltrona grande e larga para mim. A lareira estava acesa, aquecendo tudo. Observei por um tempo a engenhosidade do projeto que não deixava faltar ar no quarto. Nem um pouco de fumaça ficava ali. Puxei a poltrona para a frente da janela e observei a neve lá fora enquanto deixava as lágrimas saírem porque eu não sabia lidar com mais uma partida. Pelo menos essa me dera a certeza de que nunca voltaria.
Mergulhei nas memórias preciosas de minha família e me deixei ali, relembrando seus rostos, vozes, cheiros, personalidades e todos os detalhes que me eram inalcançáveis além das lembranças. Quanto mais o tempo passava, mais amor eu tinha pelas lembranças da infância, quando meu pai estava sempre comigo, criando para mim a realidade e o ambiente que ele julgava ideais.
Lembrei-me que tudo de minha infância estava guardado no quarto destinado às crianças da família, junto a berços e peças infantis. Saí do quarto de vovô em silêncio e me arrastei até aquele lugar com cheiro de mofo. Entrei sozinha, novamente. Estava limpo, porém muito frio. Abri um armário e encontrei todos os meus brinquedos e outros que tinham sido de outras crianças. Chorei vendo as bonecas que ganhava quando vovô voltava de viagem. Minhas memórias bonitas tinham provas concretas. Abri outro armário e vi algumas das minhas roupas. Havia roupas de Lwana também. Alguns pares eram iguais e havia até mantas bordadas por minha mãe. Tudo tinha cheiro de família. De amor. Naquele momento pareciam tão pequenos em minhas mãos, quando, nas memórias, tudo era grande e eu arrastava por aí com todas as minhas forças.
Fui abraçada por trás. Era Valenius. Ele passou dos braços pela minha barriga. Minhas pernas cederam finalmente e me abaixei até me sentar no chão. Ele se abaixou junto, sentando-se encaixado em mim e ainda me abraçando. Apertei a manta junto ao peito e chorei até me cansar, encostar a cabeça no peito de Valenius e dormir envolvida pelo calor de seu corpo.
Era aquilo que eu buscava: o amor.
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Ana Merak - Dever e Honra
FantasiAna Merak descende de uma família que se encontrou com a magia em condições adversas. A mãe de Ana era humana, mas foi recrutada para lutar pelo equilíbrio do mundo. Em meio ao caos da vida, a prestigiada Lira Merak deu à luz suas filhas, e teve uma...
