"Eu não acredito, pai! Por todo esse tempo você não tinha cancelado nada?", essa foi a minha reação honesta e perplexa, quando eu soube que ele tinha mantido os planos do casamento, e que os pais de Valenius foram coniventes com a loucura. Eu não sabia muito bem o que sentir diante daquela atitude. Estava grata porque meu pai tinha pensado em mim, mas assustada por ser tão previsível para ele quando eu sequer sabia se Valenius retornaria ou não.
Valenius, com quem tive uma conversa profunda para esclarecer os problemas, chegou a confessar que tinha pensado em não retornar.
— O retorno não estava nos meus planos. Sofri muito apenas de me imaginar vivendo no mesmo lugar que você, minha amada, olhando para ti todos os dias, sem poder desfrutar de seu amor. — Ele falou enquanto desviava o olhar. A sua expressão se tornou um misto de vergonha e melancolia, com uma ponta de dor. — Porém as crianças estavam fracas demais para viajarem sozinhas e eu tinha essa responsabilidade de trazê-las aqui.
— Eu me arrependi dos meus atos logo depois da sua partida, Valenius. Se não tivesse voltado ou se não me perdoasse, não sei o que seria de mim. — Peguei as mãos dele. Estavam machucadas e enfaixadas. As condições às quais foi exposto não seriam suportadas por um ser humano.
Era a nossa primeira conversa cara a cara. Nossa oportunidade de abrir os corações.
— Eu quero que você entenda os meus motivos, Valenius.
— Não me importam os motivos, Ana. Isso já ficou no passado, pois, posso me ver vivendo sem você, mas em nenhum desses cenários eu seria realmente feliz. Serei obrigado a te perdoar cedo ou tarde, por força de meu imenso amor, que eu cultivo com orgulho. Não há justificativa que sustente uma pirraça. — Ele suspirou, cansado de tudo. Valenius só queria paz, ócio e conforto.
— Devemos conversar sobre isso para que não se torne um rancor, uma muralha entre nós, no futuro. Então, eu já poupo o seu tempo e resumo: eu tive medo de por no mundo crianças que sofreriam como eu, com a mesma sina. Crianças filhas do mundo humano e do sobrenatural. — Falei sem rodeios.
Ele me encarou com intensidade, nitidamente surpreso, e ficou em silêncio por um longo tempo. Um silêncio reflexivo e perplexo. Suas expressões deixavam ver o quanto ele estava considerando aquele tópico, que parecia nunca ter passado pela sua cabeça. Havia tanta gravidade naquele assunto que Valenius sequer conseguia responder sem ponderar. Nem me amando loucamente, ele foi capaz de dar uma resposta simples. Diante disso, eu entendi, que não estive tão errada em meus sentimentos dolorosos. O medo que me sufocou não foi apenas uma insanidade minha.
— Eu compreendo, Ana. Ou, pelo menos, tento entender o seu ponto vista. E, como você se sente agora? — Abriu espaço para eu expressar meus possíveis medos. — Os Luppus conhecem uma técnica milenar para não conceber, e, nunca falha. Se você quiser...
Havia dor e decepção em seu olhar, porque ele queria uma família com filhos. Contudo, Valenius estava sendo sincero em sua oferta. A instituição da nossa relação era maior do que as convenções e os desejos particulares, cultivados em terreno onírico. Juntos nós entendemos o companheirismo na prática.
— Eu me sinto pronta para seguir em frente e ser mãe, se for esse o meu destino. — Acariciei o rosto dele. — Nesse tempo que você esteve fora, descobri mais sobre a vida e a dor do que eu jamais poderia imaginar. Estou pronta para ser mãe dos nossos filhos, independente das condições. Eu desejo isso.
— Eles nem sempre nascem lobos. — Valenius informou.
Meu queixo quase bateu no chão com aquela informação. Era possível?
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Ana Merak - Dever e Honra
FantasyAna Merak descende de uma família que se encontrou com a magia em condições adversas. A mãe de Ana era humana, mas foi recrutada para lutar pelo equilíbrio do mundo. Em meio ao caos da vida, a prestigiada Lira Merak deu à luz suas filhas, e teve uma...
