O CORPO VIOLADO

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O tempo passava miseravelmente devagar. Eu sentia tanta dor que a minha vontade era me jogar da cama e me debater no chão até a morte. Eu tinha a sensação de que cada fibra do meu corpo e da minha alma estavam sendo arrebentadas. Uma a uma. Pequenas e fortes chicotadas imaginárias, principalmente na região do ventre, enquanto era torturada com agulhas imaginárias e cólicas de cortar a respiração. Eu estava travando os dentes o tempo inteiro e me controlando ao máximo. Ao meu lado estava o meu marido, sentado na cama, derrubado, corcunda do fracasso que sentia, sem nenhum brilho no olhar. Eu via a culpa o consumindo com lentidão, queimando-o como o fogo do inferno. Eu via seus medos. Eu não queria ver, mas eu via. Eu não queria compartilhar a dor porque eu precisava que Valenius estivesse forte para Arge.

Eu não ia me render, pois se me rendesse deixaria um órfão de mãe. E eu que tinha medo do que podia acontecer com ele pelo fato de o pai ser lobo e ter inimigos. Se eu o deixasse desprotegido, eu ia prejudicar meu filho com a minha ausência, minha morte repentina por ser uma simples humana. Era irônica a situação, visto que eu sempre temia pelo sobrenatural, quando a minha fragilidade era o que ameaçava mais. Ele precisava de mim. Minha única escolha era viver. Apenas viver. Mesmo que fosse difícil passar por toda aquela dor, eu precisava caminhar pelo vale das sombras. Era meu dever como mãe.

— Estou com fome. — Menti.

Eu queria que Valenius saísse do quarto para eu chorar e gemer de dor em paz. Eu queria muito correr para longe, para onde estava a minha criança morta, para a abraçar seu caixão e verter o meu desespero sobre ele, mas mal conseguia erguer meus braços.

Observei Valenius se levantar para buscar comida. Andando como se fosse oco, sem propósito, aterrorizado por tudo. O olhar quase catatônico. Ninguém tinha colocado um sino ali para ele chamar por ajuda quando precisasse. Ele abriu a porta e fechou atrás de si.

Eu finalmente pude chorar. Deixar as lágrimas grossas correrem no silêncio abafado daquele quarto. O cheiro ferroso de sangue dominava o ambiente, me embrulhando o estômago. Tentei levantar meu corpo violado pelo aborto forçado e não consegui. Senti uma forte pontada no peito. Uma dor de perder o ar. Era uma costela quebrada. Percebi quando apalpei e senti a faixa. Eu não era mais do que um trapo de gente jogado sobre um colchão. Leite começou a vazar dos meus seios doloridos e me senti ainda pior porque não podia amamentar Arge.

O sentimento de derrota me tomou por inteira.

Ana Merak - Dever e HonraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora