Quando entrei no salão, havia silêncio absoluto. Não se ouvia nem mesmo uma respiração mais alta. Todos os olhos estavam cravados em mim. Convenci-me de que era porque no meio do caminho eu tinha colocado o medalhão no pescoço. Eu já me sentia menos eu quando não o usava. Entrei de cabeça erguida, sem me atentar demais aos detalhes. Registrei apenas as pessoas muito bem vestidas e adornadas.
Caminhamos para o centro do salão e meu pai falou algumas palavras para os convivas.
— Hoje, estamos aqui reunidos para celebrar os anos de minha filha e para que a conheçam. O tesouro da minha casa, que guardei por tanto tempo, conservando longe das malícias do mundo. Saibam que estarei de olho nos espertos, e que os olhos de um bom pai jamais falham! — Os homens riram dessa piada imbecil, mas que servia de alerta. — Não deixarei Ana falar, pois ela tem uma voz bonita e não vai gastar sem necessidade. Então, com a honra de vossas presenças, inicio o baile.
Ele acenou para a orquestra e tomamos posição. Meu coração estava acelerado. Tive medo de errar os passos. Vi expressões de julgamento na multidão. Tentei calar os pensamentos para me concentrar apenas no prazer da dança, e funcionou. A música era um mantra na minha mente, levando embora os sentimentos ruins.
Terminamos a primeira e vovô tomou posição para a segunda. Segui meu pai com os olhos, vi que ele saía do salão. Talvez fosse se refrescar um pouco depois da atividade vigorosa. Vovô, ao meu lado, pegou uma taça e ergueu um brinde.
— Aos quinze anos de Ana Merak! — Gritou com imponência. Senti meu corpo tremer com o ressonar de sua voz.
Os convidados gritaram e comemoraram em homenagem aos meus anos. Muitos pareciam genuinamente felizes, principalmente os meus vizinhos Nectarius, Leonus, Ciprian e Narcis. Constantin e Basiliu estavam estonteantes de tão lindos, rodeados por um séquito de moças. Era um alento ver aqueles rostos tão familiares. Todos enviaram presentes, mas eu ainda não os tinha aberto.
A música começou outra vez. Era uma das composições novas de um músico promissor. Desconhecida, mas vovô e eu ensaiamos os passos com antecedência para que saíssem perfeitos. Dançar com meu avô era bom porque eu me sentia como uma pluma flutuando por aí. Eu estava animada porque tudo dava certo. O grande ápice do final da dança chegava. Uma sequência de três giros com dois saltos no final, onde vovô me erguia por dois segundos. Digno de artistas. Da artista que eu era.
No primeiro giro vi Solis e Valenius em um canto, me encarando com sorrisos orgulhosos. Havia amor em suas expressões. No segundo giro, avistei Pricila e Jis, ele parecia feliz, tinha a expressão de quando me abençoava. Já Pricila, sorria de uma maneira misteriosa de quem está prestes a revelar um segredo.
No terceiro giro, percebi um burburinho na direção das janelas. E quando vovô me ergueu, eu a vi.
Meu coração parou, o tempo parou. Tudo congelou ao redor quando meu olhar cruzou com o dela. Estava de mãos dadas com o meu pai e era exatamente a mesma pessoa das minhas lembranças. A minha mãe. Eu só queria tocá-la e comprovar que não era uma miragem. Saltei das mãos de meu avô e caí de mal jeito. Algumas joias saíram do meu cabelo, mas eu não me importei. Deixei elas no chão.
— MAMÃE! — Berrei para ela entender que eu a reconhecia. A repetição veio como um desespero, para que ela não fosse embora. — MAMÃE!
Apenas fiquei de pé e corri, abrindo caminho à força, empurrando as pessoas com cotoveladas. Ela não abandonava o meu olhar. Ela tinha uma aura de força inexplicável, distorcendo o tempo. Era uma guerreira em sua existência, em seu respirar. Ela abriu os braços para mim, sendo uma pessoa e um lar que me esperavam pela eternidade de nosso sofrimento. Eu me lancei, sentindo o calor fervente de seu colo, que só ela tinha. A vida pulsante em magia. Pele macia. E cheirosa, muito cheirosa. Cheirava a frutas e flores ao mesmo tempo. Mamãe tinha cheiro de natureza fresca e forte. Ela cheirava à vida.
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Ana Merak - Dever e Honra
FantasyAna Merak descende de uma família que se encontrou com a magia em condições adversas. A mãe de Ana era humana, mas foi recrutada para lutar pelo equilíbrio do mundo. Em meio ao caos da vida, a prestigiada Lira Merak deu à luz suas filhas, e teve uma...
