MINHA PRIMEIRA SOLIDÃO

22 10 1
                                        

Por mais que eu tivesse uma família unida e participativa, que não me abandonou em nenhum momento, descobri que ser mãe era um processo de solidão. Ninguém poderia ser mãe por mim e nem entender como era estar no meu lugar, um pouco porque cada mãe é única, e outro tanto por existir uma certa incumbência que era exclusivamente minha e que eu não conseguiria repartir com ninguém, mesmo que tentasse. Por mais que, em silêncio, sempre tenta me sentido culpada por isso, o que eu pensei quando peguei meu bebê no colo pela primeira vez foi: nasceu a minha grande solidão. Então eu sorri para ele, enquanto admirava a sua mão pequena e frágil. Tive pensamentos imediatos de impotência. Eu seria capaz de manter viva e intacta aquela criatura tão delicada e dependente? E se eu não conseguisse? Se não fosse capaz de alimentar, se o quebrasse sem querer...

Arge tinha a pele feia, muito enrugada. Nenhum pelo. E estava avermelhado. Eu vi alguns dos vasos sanguíneos de seu corpo através da pálpebra inchada e translúcida. Havia um sentimento novo em mim. Algo que era uma mistura de orgulho, amor e pesar. Despedi-me de uma vez da pessoa que eu já fora antes e dei as boas-vindas para a minha nova versão. Uma Ana cansada, desolada e repleta de sentimentos inexplicáveis.

— Amo-te, Arge. — Falei sem pensar. Era uma expressão genuína, advinda do fundo da minha alma. Porque também existia um sentimento de que eu seria capaz de enfrentar o mundo inteiro por aquele ser em meu colo. Eu não deixaria ninguém tentar contra a integridade do meu filho, jamais, pois eu era a sua mãe. Talvez eu me sentisse responsável demais por tudo, mas existiria alguma realidade onde isso seria diferente?

Posso jurar que ele sorriu para mim, como se me encorajasse para aquele caminho tortuoso. Dali, daquele momento mágico de fortificação do vínculo, eu soube que realmente poderia matar alguém apenas para mantê-lo vivo. Não era só um sentimento.

— Meu filho. — Falei com a voz fraca e lacrimejando. Aspirei seu cheiro doce e único, que apenas um bebê possui. A conexão era impossível de ser expressada. Um nó se fez em minha garganta ao passo em que meu coração era inundado por amor. — Meu filho.

Meu filho, fruto do meu ventre. Carne da minha carne, sangue do meu sangue. Meu herdeiro. Meu presente para o mundo porque não havia nada que eu pudesse fazer que se comparasse com a gerar uma vida. Não havia nada e nem ninguém mais caro para mim.

Pouco depois, Pricila me ajudou a sair da banheira cheia de sujeira. Pensando naquela imagem mais tarde, eu tive asco, mas no momento eu não me importei tanto. Nem sobre a sujeira, sobre meu corpo deformado ou sobre a fraqueza que eu sentia. Limpei-me e caminhei com dificuldade até a cama forrada. Felizmente eu tinha apoio. Pricila parecia ser muito experiente nas artes e nos cuidados relacionados à uma parturiente.

— Como se você sente? — Ela perguntou em tom tranquilo enquanto me ajudava a encontrar uma posição confortável.

Demorei para responder porque eu mesma não sabia o que externar.

— Como alguém que venceu uma batalha. — Concluí. Era um resumo de tudo, mas parecia fazer sentido.

Ela riu. Um riso divertido, misterioso e cheio de significados.

— Existem sentimentos que só pertencem a nós. — Falou. Então voltou para a sala de banho, soltou a água suja e trouxe Arge para mim.

— Obrigada por toda a sua assistência. — Repliquei com os olhos se enchendo de lágrimas. Eu não conseguia controlar. — Foi muito importante para nós.

— Não chores. — Ela limpou meu rosto e me cobriu.

Talvez fosse o que a minha mãe faria.

Pricila abriu a porta, então meu pai e Valenius entraram para conhecer o mais novo Alioth-Luppus-Merak. Foi gratificante ver o quanto estavam ansiosos e como desejavam a existência daquela vida. Foi reconfortante estar envolta por toda a expressão de alegria que veio deles. As dezenas de beijos que Valenius deu no meu rosto, seus gestos desajeitados porque estava com medo e a implicância de meu pai, que tinha muita experiência, já que tinha se dedicado tanto ao seu papel. Papai me parabenizou, checou se eu estava bem, se precisava de algo que não estava ao meu alcance ou se eu tinha a necessidade de conversar. A minha mente se abriu e eu entendi finalmente, de coração, o bom pai que ele era.

Ana Merak - Dever e HonraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora