CORNELIUS

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O castelo da família Cornelius era uma sólida fortaleza cúbica com vegetações cultivadas ao redor. Jardins bonitos de plantas espinhentas e venenosas que enganavam à vista de suas flores. Nada estava florido porque o inverno se aproximava e o outono não dava trégua. A minha carruagem passava pela estrada de pedras que havia entre o povoado e o castelo. As pessoas pelo caminho tinham o semblante carregado. Havia alguns anos que eu tinha visitado a Fortaleza Cornelius pela primeira vez. Na ocasião tudo estava florido e o sol brilhante trazia bons auspícios, mas no dia do casamento de Ivantie não, nesse dia o tempo estava fechado e mal agourento. Estremeci e passei as mãos pelos pelos de meus braços, que se eriçaram.

— Quanto mais cedo voltarmos, melhor. – Solis, sentada logo à minha frente, parecia sentir o mesmo que eu.

Estávamos cercadas pelos cavalos da guarda e eu só queria que não chovesse, para retornarmos no mesmo dia e com o mínimo de conforto.

— Odeio essas ocasiões sociais. — Reclamei enquanto ajeitava uma das inúmeras joias de família que enfeitavam o meu peito. Um broche. O vestido marrom com bordados dourados era luxuoso e imponente.

Eu não me sentia tão deslumbrante quanto estava.

— Você costumava gostar delas quando era criança. Sonhava muito com bailes. — Solis sorriu irônica. Um pouco sarcástica.

— Eu também mijava nas calçolas quando era criança e nem por isso ainda o faço. — Repliquei, arrancando de minha amiga uma gostosa risada, que me trouxe uma nesga de paz. — Nada é tão permanente na vida.

— Não precisa ser tão ácida, Ana. Pense na comida. Nas fofocas. — Tentou me animar.

— Prefiro não pensar, pois sei que muitas delas serão sobre a minha pessoa. — Bufei após encher as bochechas de ar.

— Pelo menos não lhe esquecem. — Solis sacudiu os ombros de uma forma engraçada.

— Infelizmente. Esses chacais não param de vigiar a minha vida. — Lancei um olhar baixo.

Passamos pela entrada e a carruagem começou a parar.

— Coloque um sorriso no rosto e seja agradável. — Solis ordenou, pois eu estava sem ânimo para fingir.

Ergui uma sobrancelha.

— Nem parece que eu sou a senhora por aqui. — Reclamei. Era por puro capricho, pois em público a conduta de todos era impecável. Em privado eu não me importava com as atitudes de meus amigos.

— Arrume essa cara, senhora Merak. — Ela sussurrou.

Aquilo me arrancou um sorriso.

Desci da carruagem com uma expressão agradável, fingindo que me importava com aquele casamento. Vizinhos são aliados e sempre queremos que nos tenham em alta conta. Segui as orientações e terminei sentada ao lado de Solis, em uma capela simples e adornada com plantas e tecidos. Não entendi a escolha feita pelos noivos, porém não era da minha conta. Não havia padrões de cores e nem mesmo uma ordem. Apenas muitas flores jogando seus aromas no ar, fazendo um ou dois convidados espirrarem. Colocaram-me em uma ponta de banco, nas fileiras do meio entre o altar e a saída. O motivo de ficar tão distante era o pedido para que pelo menos metade da minha guarda me acompanhasse dentro da capela. Ionela observava a todos com seus olhos de águia, mas percebi que ela retorcia levemente, para baixo, os cantos dos lábios, quando mirava um certo guarda da fortaleza. Solis também notou e me cutucou, sinalizando breve.

A minha guarda chamava muita atenção, porém tentei ignorar. Era uma prioridade estar protegida. Valenius estava parado ao meu lado, em pé e imóvel.

Ana Merak - Dever e HonraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora