Valenius, já idoso, porém firme de saúde, segurava a porta do quarto pelo lado de fora. Era comum que os indivíduos do clã dele vivessem por muito tempo, pois não eram humanos. As regras do mundo funcionavam de forma diferente para eles também, então ele estaria na vida por mais tempo do que Ana jamais poderia estar. Era um fardo determinado no nascimento.
Eu, ao lado da cama de minha filha idosa, segurei a sua mão trêmula e frágil. Ana viveu mais de cem anos porque a curei muitas vezes, mas eu já não podia mais fazê-lo, pois não era natural. Se eu persistisse, ela se tornaria um cadáver ambulante. Por mais que fosse difícil, eu precisava aceitar que tudo tem um fim. A minha filha era humana e um dia seu fim chegaria. Aspirei o aroma da pele enrugada e delicada, sentindo o cheiro da vida que ainda corria em suas veias. Encostei a minha bochecha no calor brando de sua mão.
Fiz as paredes e o teto ficarem cobertos de água. As águas ondulavam e formavam vagas, como se houvesse vento, e traziam para dentro do quarto o som do oceano. No ar, pássaros de fogo voavam, trazendo de volta uma lembrança distante de quando Ana era bebê e eu fazia os mesmos pássaros voarem sobre o seu berço. Os pássaros cantavam como se fosse manhã. Entre o voo dos pássaros havia uma chuva de pétalas de flores, flocos de neve e folhas amareladas como no outono. Tudo se acumulava sobre o chão. O ar tinha cheiro de primavera, momentos depois de uma chuva branda, quando folhas verdes e novas brilham sob o sol. Tudo aquilo desapareceria quando eu quisesse. Fiz tudo para Ana sentir-se em um lugar além do tempo e das limitações da vida. Inclusive a brisa suave, com aroma de orvalho, que acariciava o rosto dela.
— Deixe eu ver a sua verdadeira forma, mãe, por favor. — Ela pediu com sua voz rouca e fraca. Os olhos esbranquiçados ainda brilhavam, pois viveu bem. — Embora eu não enxergue mais tão bem.
Ela riu, fraca.
Com um nó na garganta, realizei seu desejo e em poucos segundos me tornei novamente uma mulher jovem com grandes asas de fogo, olhos em chamas e corpo quente.
— É magnífica. — Ela sorriu e tossiu. Então ficou em silêncio enquanto passava a mão no meu rosto.
— Ana... — Passei a mão em seus cabelos brancos e finos. — Não assuste a mamãe.
— Eu tive uma boa vida, mãe. Valeu a pena. Eu sinto que vou descansar em paz depois dessa justa jornada. — Ela declarou com serenidade.
Meu coração ficou partido. Não havia dor maior do que perder um filho, mas eu não podia lutar contra o tempo. Tentei firmar o pensamento na vida honrada e digna que Ana teve. Seu nome percorria o mundo pelos incríveis feitos. O povo daquelas terras não conhecia mais a ignorância e a miséria. Tinha muitas décadas que as crianças não iniciavam a vida estando em trabalhos e ofícios. Eram educadas e seguiam para diversos caminhos dignos quando cresciam. Tínhamos uma Universidade com histórico de nomes ilustres em bustos e retratos. Recebíamos pessoas do mundo todo. A educação era gratuita e considerava aptidão ao invés de fortuna. Sob a administração de Ana, o nome Merak se tornou sinônimo de prestígio, e era comum que muitos viessem se consultar com ela. Era a mais poderosa pessoa de toda aquela região e do continente. Muitas vezes mediou conflitos, evitando o início de guerras.
— Diga a Valenius que eu o amo. — Ela pediu.
Ele entrou no quarto e se ajoelhou ao lado da cama.
— Eu também amo você. — Ele tocou os lábios nos dela. Ela sorriu, apaixonada. — Amei-te por toda a vida. Eu cuidei de você, Ana Merak. Assim como dos teus filhos, e dos teus netos.
Cada palavra me quebrava mais a estrutura.
— É engraçado como você sempre acerta o momento de chegar, Valenius.
— Ele sempre ouviu mais do que você pensa. — Sorri. Uma última fofoca, para fazê-la se divertir.
Valenius começou a chorar.
— Eu amo vocês. — Foram as suas palavras finais.
Ana deu o último suspiro e se foi, com um leve sorriso no rosto.
Jis celebrou o sepultamento e fez os últimos ritos para enterrar ela ao lado do pai. Houve uma multidão de pessoas e muita peregrinação para dar o último adeus àquela que moveu o mundo à sua volta e dobrou tudo diante da sua vontade. Ana brilhou como um farol. uma benção. Senti demais por sua partida, como uma mãe sente.
Depois do enterro, Valenius me acompanhou até a floresta. Vovô Barakj tinha partido anos antes, voltou para o adeus e foi embora outra vez, antes de mim. Porque não era normal que o vissem vivo. Era a minha vez de abandonar a minha vida humana.
Despedi-me de Valenius, fiz recomendações e alcei voo.
Eu podia desistir da vida e morrer. Podia parar de ser quem eu era. Contudo, se eu desistisse, outra Bruja entraria no meu lugar. Talvez alguma criança miserável ou alguém feliz sendo arrancada do seio de sua família. De qualquer maneira, era trágico e difícil demais. Enquanto eu pudesse, eu seria aquela que me designaram ser.
Com Ana eu deixei a humana que fui um dia. A filha, a mãe, a avó e a esposa. Eu já tinha sido muito, e sentido muito por aquela vida. A partir de então eu abracei a outra natureza, pois eu era a Ira, a Lira e o Sobrenatural.
A partir dali eu seria apenas a Harmonia Elemental.
***
Eu ia postar ontem. De todo modo, desejo Feliz Natal 2023 e um próspero Ano Novo em 2024.
Abraços!
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Ana Merak - Dever e Honra
FantasyAna Merak descende de uma família que se encontrou com a magia em condições adversas. A mãe de Ana era humana, mas foi recrutada para lutar pelo equilíbrio do mundo. Em meio ao caos da vida, a prestigiada Lira Merak deu à luz suas filhas, e teve uma...
