Naquela noite todos os seres que lutariam pela família Merak se organizaram na floresta próxima ao bosque, além do muro do castelo, onde não podiam ser vistos e nem bisbilhotados. Na tensão pungente havia cuidado para serem o mais silenciosos possível, pois a discrição é parte importante da arte da guerra, principalmente quando não se deseja alertar uma parte amiga. Ana não podia saber. Ninguém tinha coragem de olhar nos olhos dos demais, pois a sensação de traição e de morte vindoura não deixava que levantassem as cabeças. Alguns estavam mais profundamente consternados do que outros, visto que tinham mais motivos para sentir medo.
O chão e as folhas estavam úmidos porque tinha chovido um pouco mais cedo naquele dia. Ouvia-se respirações irregulares e ansiosas. Sob o farfalhar das folhas, tomava forma o medo de morrer, unido ao medo de perder alguém naquela injusta batalha. O sentimento horripilante e arrepiante apunhalava os corações. Vestindo armaduras, portando suas armas, com aperto nos peitos e pouca esperança, aqueles seres esperavam. No fim, cada um estava disposto a morrer pelo objetivo de salvar Ana e Argentum Merak. Custasse o que custasse.
Há vitórias que nem todo o ouro do mundo pode comprar e essas são as mais valiosas porque são as mais difíceis. Sempre há alguém atrás delas por seu espírito suicida, enquanto quem tem oportunidade de consegui-las é quem não procura por elas porque tem muito a perder.
Com pensamentos confusos, os defensores do Castelo Merak começaram a se mover na direção dos Munții Apuseni. Alguns iam a cavalo e outros a pé. A movimentação fazia um barulho específico graças ao solo molhado, apesar de não ser alto porque os Luppus e Pricila tinham passos leves. Não havia nem um traço de luz passando pelas folhagens para refletir nas armaduras pretas com o brasão da família Merak. Era uma madrugada quente, de lua arregalada além dos cimos das árvores, e de céu estrelado, deslumbrante. Os animais começaram a se agitar, fazendo cada vez mais barulho com seus cascos. Talvez porque estivessem ganhando fôlego em seu trote, passando para uma corrida. Ou porque o feitiço secreto de Pricila para abafar os sons estava enfraquecendo.
Ao chegar nos pés dos montes, a matilha se transmutou para a sua segunda e mais bestial forma. Aos poucos, ainda em movimento, apareciam lobos humanóides muito altos e fortes, equilibrados em duas pernas que pareciam sempre meio flexionadas sobre patas enormes. Eram peludos, com dentes e garras proeminentes, olhos vermelhos de ódio, focinhos grandes e sensíveis, orelhas em pé. Alguns eram mais grotescos do que outros, pois, naquela forma, diferente da animal, era possível ver suas cicatrizes de batalhas anteriores. E de suas bocas saíam baixos e guturais rosnados quase ininterruptos. Os corações cheios de ira não deixavam espaço para o cultivo de piedade. Quem entrasse em seus caminhos estaria morto, não havia outro fim. Aqueles que estavam nos dorsos de cavalos, deixaram os animais presos nas árvores dos pés dos montes. Pricila começou a flutuar acima do chão e seus cabelos chicoteavam em várias direções.
A sanha coletiva de fazer o sangue correr, tornou-se quase palpável. Não sairiam dois campeões daquele confronto.
Enquanto o grupo ia buscar pela vitória contra os humanos obcecados por uma mentira erigida no seio de seus delírios, Ana escapava pelas passagens secretas do castelo. Treinada por Barakj, aperfeiçoada pelos Luppus, a mulher tinha passos leves, ágeis e respiração baixa, muito controlada para não se sobressair dentre qualquer outra. Estava vestida com a sua roupa de dormir, por não ter como pegar a armadura sem ser vista, já que a guarda estava especialmente dedicada em sua função naquela noite, nem teve oportunidade de vestir outra roupa porque teve poucos segundos sozinha para escapar. Era uma camisola branca, comprida, larga, de tecido quente e grosso, sem detalhes que a enfeitassem. Sempre havia alguém em seu quarto, então não teve mais do que dez segundos para sair de lá. Não pode, também, dispor de um cavalo. Levava a bainha da Filha de Eva pendurada em seu tronco, na transversal. Estava fraca, manca, não podia nem andar, A dor ignorada a advertia do quanto estava sendo arrebentada por dentro, mas Ana deixou somente a adrenalina gritar, para não ser enfraquecida e não cair de joelhos no chão molhado. Olhou muitas vezes para trás, pensando em retornar enquanto se lembrava do filho, contudo, foi por ele que ela escolheu partir naquela noite. Entrou no bosque com lágrimas correndo pelo rosto, coração pesado e a certeza de que não sobreviveria. Passou pelo muro em uma passagem não muito antiga que ela pediu para abrirem, e entrou na floresta, seguindo para os Munții Apuseni.
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Ana Merak - Dever e Honra
FantasyAna Merak descende de uma família que se encontrou com a magia em condições adversas. A mãe de Ana era humana, mas foi recrutada para lutar pelo equilíbrio do mundo. Em meio ao caos da vida, a prestigiada Lira Merak deu à luz suas filhas, e teve uma...
