ENLACE

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A pior parte era sempre o castelo vazio.

Cheguei e fui recepcionada pela guarda do castelo, que me passou as notícias recentes. Da minha própria guarda, apenas Valenius, Tellūris e Polaris ficariam naquela noite. O restante iria descansar e se organizar. Deixei-os na estrebaria e entrei primeiro no castelo, ouvindo o eco dos meus passos através dos cômodos. Engoli seco quando avistei a pintura de minha família. Meu coração apertou, o peito doeu, os olhos marejaram. Andei mais rápido para abafar aquele sentimento de abandono e solidão. Um desconsolo. Porém, era difícil ignorar. Havia muitas semanas da partida de meu pai, então não tive nenhuma notícia.

Entrei no corredor dos quartos e caminhei na direção do meu, mas meus olhos se puxaram para a porta do quarto daquele que pertencia ao meu pai. Uma lágrima rolou pela minha bochecha e morreu na minha boca. Eu não conseguia fingir que tudo estava bem. Eu me sentia tão sozinha quanto a Medusa em sua existência. Queria estar novamente presa com meu pai e meu avô, em um castelo enorme, inventando sobre uma vida exterior que não existia. Contemplando as aventuras dos livros, as histórias fantasiosas, cuja maior fantasia era a plena felicidade.

Caminhei pelo corredor de tochas acesas, ouvindo meus passos, até o quarto que era de meu pai. Segurei a maçaneta com um nó na garganta e abri a porta sabendo que não deveria fazer aquilo porque não conseguiria mais me controlar.

Uma lufada do cheiro dele me atingiu. O quarto estava gelado porque a lareira não estava acesa. Muito gelado. O castelo tinha esse problema. Estava intacto, do jeito que ele deixou. Era enlouquecedor como o ambiente e o cheiro avivaram a falta que eu sentia dele. Deixei as lágrimas rolarem enquanto pensava na minha família que estava toda longe de mim. Joguei-me na cama gélida, abracei a colcha e me desmanchei. Permiti-me ser apenas Ana e não uma senhora de terras. Tirei as botas, as luvas e o chapéu e me aninhei sobre a cama, aspirando o ar, desabafando o aperto no peito.

Sob o clarão da lua que entrava por uma claraboia, vi o quadro dele sobre a lareira apagada, que eu tinha pintado para ele. Isso piorou a saudade, então chorei mais, baixinho. Minha vida tinha muitas pessoas, mas a solidão era só minha. O choro encharcando o travesseiro era apenas meu.

Fiquei sofrendo no escuro até sentir meu corpo amolecendo. Meus pés e minhas mãos já estavam muito gelados, devido à noite fria. As únicas coisas quentes eram o sangue correndo em minhas veias e as lágrimas salgadas vertendo de meus olhos.

Dei um sobressalto quando a porta do quarto se abriu, porém não me levantei, porque estava sem forças.

— Ana? — A voz de Valenius me alcançou, confusa e assustada.

Senti ele se aproximando e pegando no meu pé com sua mão quente. Murmurei algo para ele mantê-la ali, mas ele se foi. E voltou um pouco depois com uma tocha, para acender a lareira mais rápido. Ele se apressou enquanto eu me perdia um pouco da consciência. O medalhão acendeu no meu pescoço. Fechei os olhos e aspirei de novo o cheiro de meu pai.

— Papai... — Sussurrei vendo o rosto dele no retrato, com mais clareza. Os olhos verdes, vívidos, me observando.

Cerrei as pálpebras me perdendo no escuro enquanto Valenius abanava a lareira freneticamente. Estava letárgica. Perdi a força dos dedos para segurar a colcha. Abandonei o peso da cabeça vendo vermelho através da pálpebra cerrada. Não tive mais forças para chorar. Entreabri os lábios para jogar o ar para fora dos pulmões e depois inspirá-lo. Senti o colchão se mexendo e abri um pouco os olhos. Valenius se sentou na cama, eu vi borrado, e me puxou para ele sem gentileza. Enlaçou-me em seus braços e me senti acolhida em água morna.

— Santo Lobo, está muito gelada! — Exclamou preocupado.

Encolheu as minhas pernas e começou a esfregar meus pés com uma mão enquanto me segurava contra o próprio peito quente.

Senti meus pés esquentando aos poucos e meu coração acelerando.

— Reaja, Ana. Já está ficando mais quente aqui. — Ele disse.

Murmurei algo sem sentido e aninhei-me.

Ainda me sentia mole, mas aos poucos o calor me envolvia.

— Sinto saudades dele. — Sussurrei.

— Claro que sim. — Valenius respondeu. — Desejas dormir aqui essa noite?

— Sim. — Respondi de olhos fechados, tomada pelo cansaço.

Senti ele arrancando as presilhas dos meus cabelos e soltando as mechas do penteado. Fiquei mais confortável e leve. Valenius afrouxou meu espartilho e os laços que prendiam a roupa e me cobriu com a colcha.

Já melhor, aquecida, abri meus olhos sonolentos e o avistei caminhando de um lado para o outro pelo quarto. Às vezes olhava o retrato de papai com a mão fechada em punho na frente da boca e o olhar amedrontado de quem estava cometendo algum pecado.

— Obrigada, Valenius. — Falei antes de fechar os olhos de vez e me aninhar no calor da cama.

Caí em um sono sem sonhos.

Ana Merak - Dever e HonraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora