Assustei-me ao abrir os olhos e ver que Polaris estava no canto do quarto de pedras cobertas por tapeçarias. Seus olhos estavam focados em mim. Ela desviou e piscou quando percebeu que eu estava desconfortável diante de sua encarada.
Lavei o rosto enquanto lembrava do beijo que Valenius deu em uma das mais belas viúvas de toda a região. Eu não sabia definir bem o que sentia naquele misto confuso dentro do meu peito e da minha cabeça, pois, por um lado havia ciúmes e, por outro, o sentimento de ser traída. Porém, não existe traição onde não há relacionamento firmado.
Juntei a minha bagagem e despachei com Polaris. Não pretendia ficar ali por muito tempo e qualquer segundo a mais estava me causando desgosto, reavivando as memórias. Havia me divertido um pouco com a recepção de Dionísio, era fato, mas o dever me chamava. A Instituição Fēmina não via a minha presença há algum tempo.
Saí do quarto sem olhar no rosto de Valenius. A sensação de palavras engasgadas e aperto no peito não passava, por mais que eu quisesse que fosse assim. Vali-me do fato de ser mais baixa para não olhar nos olhos dele. Segui de cabeça baixa até encontrar uma criada que me conduziu até a presença de Dionísio, que se via então como um jovem muito elegante e de agradável convívio. Não era nem a sombra daquele menino entojado, insuportável, que um dia foi. Despedi-me prometendo outras visitas e sendo positiva sobre recebe-lo no Castelo Merak.
— Venha na primavera, pois é quando está mais bonito. — Direcionei-o para que não me aparecesse no tempo frio, quando eu não teria a mínima disposição de ser sociável.
Eu não queria lidar com visitas no inverno. Estava com preguiça de qualquer presença que não fosse precisamente necessária.
— Faremos um piquenique logo que a neve derreter. — Ele prometeu com um sorriso largo e suave.
— Será com muita ansiedade que aguardarei por esse dia sublime. – Menti, já colocando aquele compromisso na conta dos milhares aos quais eu iria pelos negócios e pela diplomacia.
Não podia me importar menos com aquele piquenique, principalmente naquele momento. No fundo, toda aquela cortesia era apenas retardar o tempo de silêncio que eu teria que aguentar com Valenius, dentro da carruagem.
O inevitável chegou, mas com outra roupagem, diferente da que eu tinha previsto. Quando percebi Polaris entrando na carruagem no lugar de Valenius, expressei estranhamento.
— Por que trocaram? — Questionei-a com uma leve decepção que nem mesmo eu compreendia.
— Estou apenas obedecendo, senhora. — Polaris respondeu, confusa.
— Está obedecendo a quem? Não dei ordem alguma. — Tentei fazer ela ir atrás de Valenius.
Não foi preciso, pois ele surgiu na porta com aquela cara inexpressiva que me deixou com raiva. Ele podia se dignar a demonstrar alguma coisa, ainda que fosse a enorme felicidade por se agarrar pelos cantos com todas as mulheres daquele castelo.
— Senhora Merak, Polaris passou muito tempo sem descansar. Deixe que eu cavalgue em seu lugar. — Pediu com o tom de voz padrão de um ordinário, um empregado.
Não, eu queria Valenius ali, comigo. Para olhar nos olhos dele e confrontar seus sentimentos. Suas promessas silenciosas que eu colhi durante muitos anos. Eu queria falar e desejava ouvir.
— Assim seja. — Concordei, tentando me manter também inexpressiva.
A viagem de volta ocorria de acordo com os planos. Cochilei. Logo acordei, pois senti um solavanco. Ouvi gritos e agitação. Fiquei atenta, saquei Filha de Eva da bainha e vi Polaris pulando na minha frente, me protegendo com seu corpo.
Depois de algumas pancadas e gritos de dor, a carruagem foi aberta. A cabeça de Valenius apareceu coberta de sangue e meu coração subiu para a boca tamanho o susto. Mas não era sangue dele. Ele arremessou uma arma dentro da carruagem e quebrou algo. Olhei para fora, pela janela, e vi um homem deitado em uma poça, com braços e pernas em posições anti naturais. Não era um dos nossos camponeses.
— Quem te mandou aqui? — Valenius perguntou com brutalidade.
O homem revirou os olhos, que logo se tornaram estáticos.
— Merda! — Valenius chutou o cadáver.
Ele juntou o defunto do chão, enrolado em sua própria capa, e o jogou no dorso de seu cavalo. Mais um atentado à minha vida. Outra vez o criminoso tinha ceifado a própria vida.
Seguimos viagem em um clima desconfortável e, para piorar, a neve começou a cair, deixando tudo péssimo e cheio de estorvos. Definitivamente, eu não sairia mais do castelo para nenhum tipo de evento e recomendaria com veemência que não me visitassem mais até a primavera. Mantive silêncio, pensando sobre todas as questões, mas não havia fuga daquela que mais me consumia no momento. Foram muitos anos postergando a decisão sobre amar ou não Valenius. O sentimento sempre existiu e eu sempre fugi dele, entretanto, eu não queria mais ser covarde. Eu queria abraçá-lo. Quanto mais eu pensava sobre aquilo, mais o meu coração palpitava. Estava aceso, acordado, e eu precisava defender o meu lado. Era o justo. Por quanto tempo Valenius tinha me amado em silêncio? Ou quase isso... Todo aquele tempo. Também me machucava o fato de que ele flertava com outras, mas eu sabia que seu sentimento não era menos intenso por isso. Como eu poderia condenar Valenius quando eu mesma tinha feito a crueldade de desfrutar de outros bem na frente dos seus olhos?
Chegamos no castelo. Senti o gelado do tempo e me arrependi ainda mais de ir até o castelo de Dionísio, pois não tinha conforto em uma viagem daquelas. Valenius entregou o corpo novo para a guarda.
— Senhora... — Veteri me cumprimentou, procurando por lesões.
— Não há nada de errado comigo, Veteri. — Bati a mão em seu ombro.
— Alegro-me em saber. — Ele meneou com a cabeça.
Valenius fez menção de acompanhar o morto, mas eu o peguei pelo braço.
— Onde vais? — Indaguei, olhando em seus olhos.
— Conversar com o senhor Luppus. — Ele me disse, surpreso. Encarou a minha mão enluvada, com curiosidade.
— Não é necessário. Vamos nos aquecer e descansar. — Convidei, sentindo-me envergonhada em seguida.
— Irei em breve, senhora. Por questões de segurança é melhor estar a par das investigações da guarda. — Ele retirou a minha mão com delicadeza.
Fiquei com vergonha e me sentindo rejeitada. Será que eu tinha perdido o encanto aos olhos de Valenius?
Entrei no castelo, degustando o gelo da recusa. Em outros tempos eu não me abalaria, mas ali estava eu, de corpo e alma, quase chorando. Resolvi buscar um pouco de conforto nos braços de quem sempre me ajudou nos piores momentos. Entrei no quarto de papai, retirei a capa, as luvas, o chapéu e as botas, e me deitei na cama. Daquela vez a lareira estava acesa. Sempre deixavam a lareira acesa depois de eu quase morrer congelada. Aninhei-me no colchão e me permiti sentir o meu sangue cantar.
O sangue fluía, o coração batia e as lágrimas se derramavam para fora de mim. Amarguei a perspectiva ignorada de nunca mais ver meu avô e a minha mãe. E lamentei em silêncio por não ter meu pai ali, comigo. Como era dolorosa a sua ausência. Todos os dias eu acordava e atuava como uma adulta e uma senhora, enquanto o meu maior desejo era voltar no tempo, nos poucos anos de minha vida, naqueles tempos onde eu brincava e ouvia por trás da porta. Quando os olhos do meu pai não saíam de mim e a sua presença era constante. Quando de maneira terna ele me colocava para dormir e cuidava de mim.
Adormeci na saudade.
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Ana Merak - Dever e Honra
FantasyAna Merak descende de uma família que se encontrou com a magia em condições adversas. A mãe de Ana era humana, mas foi recrutada para lutar pelo equilíbrio do mundo. Em meio ao caos da vida, a prestigiada Lira Merak deu à luz suas filhas, e teve uma...
