A dor do ser humano é sofrer. O maior sofrimento de um pai é o choro dos filhos.
Desci correndo, atropelando os meus próprios pés, quando ouvi Ana chorando no jardim. Meu coração quase saiu pela boca, principalmente porque eu não conseguia imaginar um motivo para a sua dor repentina. Aquele não era qualquer choro. Não. Aquele era um tipo de pranto que vem do fundo da alma; que reverbera. Aos meus ouvidos soava como um pedido desesperado de socorro. Eu conhecia todos os choros da minha criança: de manha, fome, doença e aquele era o que mais me assustava, o que mais testava o meu coração.
A guarda estava toda em volta dela, com faces preocupadas e surpresas. Em uma comunhão de impotências. Solis estava sentada ao lado de Ana, observando, apreensiva. Tenebris, contrariando a escala do dia, estava ali, e Valenius, longe das vistas.
Apoiei um joelho na terra e peguei nas mãos frias de Ana, enquanto sentia meu coração apertar. Seu rosto estava retorcido em uma careta de dor. Pálido, molhado, nervos repuxados.
— Filha, fala comigo. — Pedi, tentando manter um pouco de calma exterior porque por dentro eu estava dividido entre fazer a dor de Ana passar e matar alguém. — Diga o que dói, meu amor. Diz para o seu pai.
— Paaaaaai... — Ela soltou a palavra em um gemido rascante, triste, baixo e gutural, então se lançou sobre mim e me abraçou, quase me derrubando.
A minha respiração estava se tornando irregular enquanto eu segurava o meu mundo, e ele desabou sobre mim. Apoiei direito e massageei as costas dela com movimentos circulares e palmas abertas. Aquilo sempre a acalmava quando era criança, tinha que funcionar ainda. Eu não conseguia mais pensar no que fazer, pois o choro de Ana era tão desesperador para mim que bloqueava os meus pensamentos.
— Conte onde dói, Ana. O papai vai ajudar você. — Prometi com a voz macia e calma para transmitir paciência, como falava quando ela tinha cinco anos. — Confie em mim.
A intensidade do choro estava diminuindo, ela estava se preparando para falar. Ana era sempre assim, nunca falhava. Eu conhecia até mesmo seu jeito de respirar. Fiquei grato por isso, pois eu não saberia o que fazer se tivesse piorado.
— E-e-e-eu terminei. Terminei. — Falou com pouco ar, entrecortando as palavras.
— Terminou o quê? — Incentivei a esclarecer. Quanto mais eu entendesse do problema, mais rápido eu poderia solucionar.
— Não há... Não estamos mais noivos. — Ela falou com dificuldade, antes de cair no choro outra vez. Seu corpo amoleceu nos meus braços, cedendo sem forças.
Fiquei estupefato. Solis estava mais pálida e boquiaberta do que antes. Eu nunca a tinha visto em tamanho desconcerto. Todos os presentes demonstraram uma surpresa gigantesca diante daquela revelação e trocaram olhares cheios de significado.
Tinha de ser um rompante de nervosismo com algo bobo. Não podia ser real. Eles se amavam, estavam apaixonados. Flertaram com o compromisso durante muitos anos. O que tinha gerado aquela decisão repentina?
— Onde está Valenius? — Perguntei para todos ali.
Todos ainda se entreolharam, perplexos, enquanto Ana chorava ainda mais.
— Ele precisou viajar hoje, senhor. Para buscar alguns primos que estão doentes. — Solis falou com forte preocupação. Sua voz quase não saiu da garganta, de tão trêmula.
Respirei fundo para não explodir de raiva. Eu precisava entender aquela situação antes de qualquer coisa. Separei-me de Ana, a segurei pelos ombros e fiz ela me olhar nos olhos. Era doloroso ver seu rosto inchado e vermelho de tanto chorar. A dor nos olhos.
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Ana Merak - Dever e Honra
FantasiAna Merak descende de uma família que se encontrou com a magia em condições adversas. A mãe de Ana era humana, mas foi recrutada para lutar pelo equilíbrio do mundo. Em meio ao caos da vida, a prestigiada Lira Merak deu à luz suas filhas, e teve uma...
