Perdi a conta dos eventos aos quais já tinha ido. Depois de um certo tempo eles pareciam todos iguais e repetitivos demais. Era novidade quando alguém se mudava para a região, ia embora, ou quando as crianças entravam na vida social adulta de tempos em tempos, mas logo isso perdia o frescor. Mais uma vez eu estava ali, parado entre aquelas mesmas pessoas que não olhavam no meu rosto. Se achavam bons demais para nós, os menos afortunados por algum motivo. Se eles soubessem o quão ridículas eram a maioria de suas vidas... Suas fortunas não eram comparáveis quando emparelhadas com as verdadeiras fortunas do mundo. Porém eu não podia escapar daquele tipo de ambiente, pois eu estava ali por ela, e apenas por ela. Porque prometemos protegê-la.
Ana estava parada na borda do salão, logo na minha frente, conversando com um círculo de pessoas conhecidas. Elas prestavam a ela sua máxima atenção, bebendo as palavras comedidas e calculadas que vertiam por entre seus lábios.
Dionísio estava entre eles. Um novo vizinho e velho conhecido, que, com urgência, tratava de espantar as lembranças ruins, usando de sua postura educada e divertida. Basiliu devorava Ana com aqueles malditos olhos intensos e intrusivos. Às vezes ele ficava quase um minuto inteiro sem piscar. Eu precisava manter a calma e prestar atenção no entorno, porque não estávamos no Castelo Merak e alguma criatura mágica podia surgir ali, do além, para cortar o pescoço dela. Ana era alheia ao mundo e seus perigos, mas era ainda mais alheia de seus grandes prazeres libidinosos. Já eu, tinha percorrido terras longínquas e visto o que nenhum olhar humano veria em sua existência.
Com um cálice na mão, Dana olhou três vezes para o lado e fez um rápido gesto com a mão. Uma criada que estava entrando no salão deu meia volta e saiu. Eu poderia apostar que aquela era uma de suas espiãs, aproveitando a distração da elite para conseguir informações. Algum aposento muito íntimo seria revirado dentro de pouco tempo.
Os tópicos das conversas eram enfadonhos, vazios. Falavam sobre bens, sobre o clima, sobre planos futuros... Felizmente o odioso Dionísio propôs alguns jogos para movimentar tudo. Era o mínimo que um anfitrião deveria fazer, mas, vindo dele, e julgando a sua pouca inteligência a despeito de sua grande beleza que eu invejava, devia considerar aquele ato como uma vitória para qualquer ser vivo dentro daquele salão.
Ana participava com as suas reservas de sempre, mas estava mais solta do que o normal. Ver Dionísio era, inevitavelmente, revisitar uma parte importante de sua infância, onde tinha pouca obrigação e muito tempo vago.
Inspirei profundamente o cheiro acre do salão, mistura de suor, álcool e tabaco, e suspirei impaciente. Foi quando uma loura muito esbelta chegou perto demais de mim. Sua respiração estava um pouco alterada, meio sôfrega. Seus olhos castanhos passearam um olhar sobre o meu corpo, sem vergonha alguma de ser pega naquele ato. Eu conhecia aquela expressão de clemência que veio depois, era desejo. Ela encostou em mim e sussurrou com voz manhosa:
— Amo homens viris e armados, assim, como você. Qual é o seu nome, bravo guarda?
Fingi que não escutei, que sequer a tinha visto. Que não sentia o cheiro de expectativa e lubricidade que vinha de si.
— Posso te dar algum ouro pelo seu nome, ou o que você desejar. Até mesmo a sua liberdade.
Eu não achava que o ouro pudesse comprar tudo, mas tirar dinheiro de uma rica que eu poderia ter de qualquer maneira, era um tipo de esporte bom. Pelo menos para mim. Eu não tinha dividido um colchão com uma rica até aquele momento, apenas com as pobres curiosas. As ricas eram fofoqueiras e atraíam o assédio constante de outras, que queriam um corpo quente e forte para agarrar, enquanto as moças pobres queriam apenas matar a sua carência, por serem viúvas ou casadas com pessoas que não lhes supriam.
— Eu sei que você me deseja. — Ela ronronou. — Vou te procurar depois e você não vai escapar das minhas mãos.
Ana olhou para trás com expressão de poucos amigos. Ela encarou a mulher, e parecia ter ouvido tudo o que foi dito por ela. Seu olhar feroz me deixou um pouco feliz, eu não podia negar. Era uma centelha do que eu queria ter dela, mas jamais teria. Um pouco de ciúmes que me fizeram sentir que eu era seu. Quisera eu que ela estivesse louca de amor e que avançasse naquela que queria o meu corpo. Àquela altura eu já estava desistindo por completo de ser correspondido e realmente considerava outras opções. Havia algumas Luppus que dariam ótimas esposas e poderíamos construir um lar perfeitamente bom, honesto, confortável e com uma família alegre.
A noite se arrastou no mais profundo tédio. Solis não foi conosco, então era melhor eu não dormir. O castelo, apesar de limpo, ainda tinha um ar de abandonado. Fiquei na porta do quarto de Ana, vigilante, enquanto Polaris estava do lado de fora, vigiando a janela. Havia muitos sons noturnos. Animais, gente conspirando, traições, juras de amor, suspiros eróticos e corpos se batendo. Nada de magias, brigas e outras questões que exigissem maior atenção.
Então a loura apareceu no corredor com uma grande camisola de tecido muito fino que deixava ver todas as suas formas. Não consegui ignorar. Estava cheirosa e com os cabelos soltos, balançando, provocando como a tentação que ela era. A mulher parou na minha frente segurando um toco de vela em um candeeiro e iluminando seus seios intumescidos. Seus lábios estavam inchados e as pupilas dilatadas. Ela fez algo antes, foi buscar o fim.
— Você me inspira a lascívia. — Ela pegou a minha mão e passou sobre o seu corpo.
Eu deixei-a pender, sem demonstrar emoção. Havia algum nível de interesse, não posso negar. Ela ficou na ponta dos pés, apoiou as palmas das mãos no meu peito e sussurrou no meu ouvido:
— Diga-me, quanto ouro você deseja, isso não é problema para mim. — Tentou me dissuadir da frieza.
Eu não conseguia sentir bem o seu toque, pelo menos não através dos metais da armadura, mas sua intenção era instigante por si só.
Agarrei o maxilar dela com uma mão, apertei nos pontos certos até que ela abrisse a boca e a beijei. Por puro capricho. Ela gemeu de prazer, ficou bamba, como um boneco, entregue à mim.
A porta do quarto se abriu e Ana nos olhou com uma mistura de espanto e horror. Soltei a mulher e fui me explicar, mas Ana rapidamente fechou a porta e passou a chave.
— Merda! — Praguejei, irritado.
A mulher tentou se aproximar outra vez, confusa, mas cheia de desejo. Lancei um olhar carregado de fúria e soltei um grunhido profundo. Ela ficou assustada. Era para estar. Saiu andando rápido e com passos miúdos.
Estava repleto de raiva, contudo, quando ouvi Ana chorando dentro do quarto, fiquei preocupado.
Bati no metal da minha armadura com a unha, em uma sequência especial. Logo Polaris apareceu, entrando por uma janela do corredor com sua forma de loba branca. Ela voltou a ser humana e procurou perigo nos arredores. Sinalizei para ela entrar e ver como Ana estava.
Ela bateu na porta algumas vezes enquanto chamava por Ana. Ana controlou o choro e abriu a porta rapidamente para ela entrar. Polaris entrou e logo a porta foi trancada outra vez.
Ouvi as vozes abafadas, mas muito altas para a minha audição.
— Há algo acontecendo, senhora? — Polaris perguntou com preocupação.
— Não. Estou apenas indisposta. — Ana respondeu com a voz engasgada.
— Pode me contar, senhora. Estou aqui para servir. — Polaris insistiu.
— É apenas uma dor de cabeça, Polaris. — Ana replicou. — Mas fique aqui esta noite, por favor. E não deixe ninguém entrar. Ninguém.
Retorci o rosto em uma expressão de ódio. Eu não conseguia entender a mágoa de Ana, mas não queria que ela tivesse presenciado aquela diversão leviana. Senti como se a tivesse traído. Uma parte de mim queria entrar e esclarecer, porém a outra... A outra, mais horrenda, comemorava por dar fim em qualquer esperança ou expectativa que eu tinha.
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Ana Merak - Dever e Honra
FantasyAna Merak descende de uma família que se encontrou com a magia em condições adversas. A mãe de Ana era humana, mas foi recrutada para lutar pelo equilíbrio do mundo. Em meio ao caos da vida, a prestigiada Lira Merak deu à luz suas filhas, e teve uma...
