OUTROS APRENDIZADOS

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Para complementar as minhas lições, e seguindo uma sugestão de meu avô, meu pai começou a me mandar para a cozinha, a fim de aprender a cozinhar. Era um aprendizado relativamente comum para as meninas, sendo nobres ou não. Saber administrar um lar era algo complexo e desejado para uma esposa, por isso os ensinamentos começaram desde cedo. Para administrar bem uma casa, não bastava saber mandar fazer, mas era preciso saber fazer, para ensinar aos servos que não saibam como. E para apontar os erros com precisão, sugerindo formas efetivas de corrigi-los. Do que adianta dizer que um pão está ruim se não se sabe como corrigir o processo?

Não sei se a intenção do meu avô era de me tornar um bom partido, porém, até para lidar com o castelo eu precisava de tais conhecimentos.

Nunca me esqueci de como todos me olharam quando adentrei a cozinha pela primeira vez. Havia um caos de utensílios sendo manejados, ingredientes sendo preparados e conversas paralelas sobre diversos assuntos; no instante seguinte, o único som audível era o de água fervendo. Muitos pares de olhos arregalados estavam cravados em mim, como lanças afiadas. As pessoas estavam surpresas.

Desconfortável, olhei para todo lado e vi pessoas de diferentes faixas etárias.

Meu pai, que estava atrás de mim, limpou a garganta para quebrar o silêncio estarrecedor.

— Podemos ajudá-lo, senhor Alioth? — Foi Pulchra quem perguntou, entrando na cozinha com um ramo de tempero verde em mãos.

— Sim, eu trouxe Ana para que aprenda a cozinhar. A partir de hoje ela virá com alguma frequência. — Papai anunciou e os presentes trocaram olhares cheios de significado.

— Faremos o nosso melhor por ela! — Pulchra afirmou com um grande sorriso em seu belo rosto.

— Tenho a certeza de que farão, senhora Luppus. — Meu pai concordou com o tom genuinamente positivo.

Depois partiu.

Pulchra não ia me ensinar pessoalmente, mas me designou uma jovem assistente para que me acompanhasse. Isso porque a senhora Luppus não era menos do que o coração da cozinha, supervisionando tudo e fazendo os procedimentos mais delicados e aqueles que exigiam maior atenção e técnica.

A assistente, Kalina, era uma jovem branca, magra e muito alta. Já tinha passado da puberdade, mas não tinha curvas como a maioria. Era noiva de um cavalariço. Vovô Barakj foi convidado para o casamento. Na verdade era convidado para todas as celebrações importantes e ia em todas. Batizados, casamentos e até velórios, fizesse chuva ou sol, porque essa era uma das formas que demonstrava seu apreço pelo nosso povo.

Kalina foi ousada e logo colocou uma faca na minha mão. Era pequena, porém afiada. Um rapaz ao lado dela olhou torto e sussurrou como se eu não pudesse ouvir:

— Estás louca? Basta um corte na mão dessa menina para a sua vida se transformar em um inferno.

Senti-me desconfortável porque ele pensava daquela maneira. Eu não queria ser um problema para a minha tutora. Havia em mim um desejo de aprender.

— Não seja idiota, Ferbos! Não ouviu o pai dela dizendo que ela deve aprender a cozinhar? Pois usar a faca é essencial. — Kalina respondeu com sua voz rouca e macia, em alto e bom tom.

Algumas pessoas riram.

— Você acha que consegue segurar a faca, senhorita Merak? — Direcionou a pergunta olhando em meus olhos.

— Sim! — Repliquei com ânimo.

— Viu isso, Ferbos? Ela consegue! — Kalina deu um tapa na mesa de madeira. — Não deixe que uma simples faca te amedronte, senhorita Merak. Para os cortes temos remédio, mas com a falta de determinação nada podemos fazer.

— Essa é a minha sucessora! — Pulchra determinou sobre Kalina, arrancando risadas dos presentes, que já voltavam a suas atividades.

— Que demore muito, senhora Luppus! — Kalina falou, colocando algumas batatas na minha frente.

A jovem se sentou ao meu lado com uma faca igual a minha e me demonstrou com lentidão como eu deveria fazer. Peguei a minha própria batata e ela segurou as minhas mãos para que eu sentisse o primeiro movimento.

Disse que eu podia fazer devagar, pois seria sua ajudante. Enquanto descasquei duas batatas, ela descascou dez. Não havia imposição para que eu fizesse mais rápido e eu tirava muito do tubérculo na casca, mas meus dedos ficaram intactos e eu entreguei resultado.

— É assim mesmo, senhorita Merak. Ninguém nesse mundo nasceu sabendo. — Kalina afirmou ao analisar meus resultados.

— Pode me chamar de Ana. — Pedi. — Todas as pessoas daqui, por favor.

— Veremos isso com seu avô.

E a vida seguiu sendo ordinária, com meus aprendizados de menina, humana que era, inserida aos poucos nas obrigações sociais e escolares. Com o tempo me acostumei e tudo se tornou rotina. A questão da rotina é que não vemos o tempo passar. Quanto mais atividades e pessoas vemos por semana, menos percebemos a passagem do tempo.

Eu aprendi todas as habilidades de uma menina nobre. Ler, escrever, cozinhar, montar, organizar o castelo, entender o que estava em cada parte e até organizar a capela para a missa.

Anos passaram sem que eu sentisse o peso de mais idade chegando, pois estava sempre atarefada na minha vida doméstica. Não havia mais choro pelos cantos ou brincadeiras solitárias pelo castelo quase vazio. Meu pai não tinha mais a aparência solitária e doente. Aos poucos, e graças ao contato, eu desenvolvi muita afeição por todas aquelas pessoas que trabalhavam no Castelo Merak. A minha amizade com Solis crescia na medida em que convivemos.

Quando contei para ela que sentia falta da minha mãe, Solis me abraçou apertado. Estávamos na horta, colhendo repolhos.

— A minha mãe pode ser sua mãe também. — Disse a menina que já tinha nove anos de idade.

— Não precisa, Solis. — Respondi rindo, mas com lágrimas correndo pelo meu rosto, porque meu peito queimava com um sentimento especial. Único.

— Não se preocupe, Ana. Minha mãe tem o coração enorme, cabe nós duas lá e ainda uma porção de gente. — Solis sorriu daquele jeito espontâneo que só ela possuía. O jeito que me deixava à vontade.

— Estou certa de que você é um anjo, Solis. — Afirmei enquanto arrancava um repolho do solo.

— Um anjo não, minha amiga. Talvez eu seja algo, porém, não sou um anjo. — Ela não sorriu quando disse aquilo. Apenas apertou o canto dos lábios.

Foi nesse dia que nos tornamos confidentes.

— O que estão fazendo? — Ionel apareceu do nada, me assustando como sempre.

Seus passos sempre eram silenciosos, como os de todos os Luppus, eu já tinha notado.

Ionel segurava duas galinhas mortas, pelas pernas.

— Isso não lhe diz respeito, Ionel! — Solis o espantou tacando um torrão de terra do qual o menino magricelo se desviou.

Ana Merak - Dever e HonraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora