ALMOÇO ADMINISTRATIVO

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Meu pai deixou vovô Barakj e Jis na câmara dos cavalheiros, onde, com alegria, eles bebiam da Palincă que meu avô guardava apenas para as pessoas mais especiais. Nós subimos até o quarto, para que eu mudasse a minha roupa pesada e cheia de enfeites, vestindo um traje que fosse mais leve e casual.

Eu estava sentada na cama, balançando as pernas, observando enquanto meu pai abria o baú onde ficavam as minhas roupas.

— Você é absolutamente bem articulada, minha filha. Não pensei que reagiria com tamanha naturalidade no seu primeiro contato com uma multidão de pessoas. — Elogiou, demonstrando sua admiração pela minha tranquilidade.

Para ser honesta eu nem sabia que havia outro caminho que não fosse aquele.

Meu pai se aproximou e ajoelhou na frente da cama, para olhar nos meus olhos.

— Ana... A sua mãe... Eu não sabia que você ainda se lembrava dela. — Iniciou o assunto com certa deferência. — Eu sempre senti receio de falar sobre ela e deixar você triste.

— Está tudo bem, pai. Eu já entendo você. — Empurrei para trás a franja dele, que caía sobre os olhos.

— O que você lembra sobre ela? — Questionou ao desamarrar as fitas da minha roupa.

— Lembro-me de tudo. Aparência, voz, cheiro... Tudo. Até mesmo das asas de fogo. — Contei enquanto ele terminava de colocar a roupa em mim.

Ele olhou assustado. Era claro que não estava preparado para aquela resposta.

— Ana, você está imaginando. — Papai me testou enquanto fazia um laço na fita da minha cintura.

— Não estou! — Jurei. Eu me lembrava, estava certa de que não tinha esquecido. Os detalhes eram vívidos e se eu fechasse os olhos conseguiria me ver dentro das memórias como se estivesse presenciando outra vez aqueles momentos.

— Não minta para o seu pai, Ana. É pecado. — Ele falou com calma extrema, sílaba por sílaba bem demarcada, sem olhar nos meus olhos.

Eu era criança, não idiota.

— Eu não estou mentindo, pai! — Enfiei a mão debaixo do meu travesseiro e tirei um pedaço de papel onde eu tinha desenhado os traços da minha mãe, usando um de carvão. — É ela! E ela é assim.

Meu pai pegou o papel, com as mãos trêmulas. Seus olhos ficaram marejados enquanto ele analisava o perfeito desenho que eu tinha feito a partir de minhas memórias.

— Alguém ajudou você com este desenho? — Questionou com a voz embargada, fitando-me com seriedade.

— Não! — Afirmei já com as lágrimas correndo pelo meu rosto. Era pesada a sensação de ser posta como uma grande enganadora. — Eu fiz sozinha! Sozinha!

Tomei o desenho da mão dele sem pensar que não era educado fazer aquilo, mas eu estava indignada. No meu limite.

— É meu. Eu que fiz! — Abracei meu desenho contra o meu peito. — E é sim a minha mãe aqui, pois me lembro de como ela era.

— Filha... — Ele também chorava. As lágrimas caíam brandas de seu olhar incerto. Eu me via refletida em suas retinas.

Meu pai inspirou o ar com força e me abraçou.

— É ela sim, filha. A sua mãe: Lira. — Ele admitiu finalmente, tirando de mim a necessidade de me defender. — Porém, para todos os efeitos, para as outras pessoas ela não é assim. Para os outros a sua mãe é como eles, sem dotes especiais. E para eles nós contamos que ela foi para um convento porque se sentia sem destino após perder a sua irmã. A vida dela como realmente acontece é um segredo nosso, da família.

Ana Merak - Dever e HonraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora