SILÊNCIO

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Apeei do cavalo e o sol do meio do dia já dava as caras no céu. Pálido, porém causticante, sol de inverno. Fraco em seu calor, mas luminoso como nenhuma outra fonte de luz conseguia ser. Sentia-me pisoteada por um animal e estava com a paciência limitada para qualquer tipo de conversa. Já tinha admitido internamente que a fadiga do cansaço estava me derrubando pela mente. A imundície em nós era detestável, mas era preciso lidar com aquele ônus do tipo de atividade que nos propusemos naquela noite sofrida. Com ânimos baixos e expressões chochas, muitos foram para suas respectivas moradas, para finalmente descansar. Outros entraram direto na cozinha do castelo, para consumir algum alimento quente, encher seus estômagos. Encontrei Solis pelo caminho, enquanto marchava sozinha para o meu quarto. Ela torceu o nariz mesmo estando a dois metros de distância.

— Urgh! Que catinga brava, Ana. — Reclamou, se afastando para trás.

— Aroma de natureza, Solis. — Falei baixo e com má vontade. — Prepare um banho de ervas aromáticas, bem quente, por favor. Nem me sinto eu mesma com esse cheiro de cavalo e suor.

— Não precisa pedir. — Ela literalmente saiu correndo.

— Céus... Podia pelo menos disfarçar. — Murmurei entrando na biblioteca para pegar a correspondência. Eu poderia ler no banho.

Catei uma cesta pequena e joguei tudo dentro. Se não lesse todos os dias, acumulava muito e se tornava uma dor de cabeça sem fim, principalmente porque muitas precisavam de respostas urgentes.

Andei sozinha pelos corredores do castelo aparentemente vazio, ouvindo os sons dos passos que eu dava com a minha bota pesada. Todo lugar estava triste e solitário, como sempre nos últimos tempos. Suspirei em um curto desabafo e olhei para as dezenas de missivas na cesta. Entrei no corredor dos quartos e bati na porta do quarto de Valenius.

— Apenas me diga se está aí! — Pedi, em busca de algum conforto, mendigando companhia.

— Sim! — A voz dele soou de lá de dentro. — Posso ajudar?

— Não, eu só desejava saber... — Cada palavra que falei soou mais para dentro.

Saí dali e entrei no meu próprio quarto, me sentindo mais segura porque Valenius certamente já tinha passado por ali.

Joguei a cesta na cama e arranquei dos meus pés as botas mal cheirosas. Estavam úmidas e meus pés com a pele esbranquiçada em alguns pontos e vermelha em outros. Mexi os dedos para sentir o sangue circulando, puxei uma cadeira e me sentei, soltando um gemido de alívio. Afrouxei as vestes e comecei a ler o monte de papéis enquanto Sólis preparava meu banho e reclamava sobre a transição de donzela casadoira para senhora de terras, quando, na verdade, eu ainda era ambos. Fechei os ouvidos enquanto me concentrava. Precisava de silêncio. Sossego. A ironia em poucos instantes de ser quem implorava por presença para quem dispensava uma.

Vi convites para eventos de inverno, um relatório de Dana que falava sobre Alexandru e os ciganos, notícias sobre disputas de terras e confusões entre senhores de terra da Transilvânia e a Valáquia. Havia uma carta de Dionísio relatando que comprou as terras ao lado das minhas e que em breve estaria de visita pela região. Fiquei perplexa com aquela aquisição, pois eram muito distantes das terras do pai dele. Nenhuma notícia da minha família, o que muito me entristeceu porque era sempre a minha maior esperança.

Solis desfez o penteado do meu cabelo emaranhado. Enfiei-me na água quente e aromática da banheira, que até levantou fumaça. Fechei os olhos e deixei minha amiga desembaraçar meus cabelos. Eu não tinha força mais, nem para aquele gesto medíocre. Respirei devagar aproveitando a sensação boa de estar ali.

Comecei a ter pensamentos sobre a ideia de construir uma estrada para ser rota de comércio. Complexa, mas eles tinham alguma razão. Aquele ato traria desenvolvimento para as terras e mais recursos se soubéssemos como explorar devidamente, mas aumentaria a violência na região devido ao fluxo de pessoas. Era preciso estudar se havia mais ônus ou bônus e formas de mitigar os problemas.

Saí da banheira e com a ajuda de Solis, vesti uma roupa apropriada para descansar. Não pretendia sair mais naquele dia, nem do meu quarto, se pudesse. Ela penteou meus cabelos molhados e começou a secá-los com uma toalha, quando alguém bateu na porta. Solis foi atender e voltou com cara de zanga. Uma expressão que não se via em seu rosto com frequência.

— O que aconteceu? — Questionei, já aprumando o corpo.

— Alexandru está aqui. E deseja falar com você. — Solis disse com desprezo, como se suas palavras fossem dardos.

Coloquei as mãos espalmadas sobre o meu rosto e pressionei. Todo castigo parecia pouco na minha vida. Eu queria deitar e dormir, mas seria obrigada a recebê-lo para o almoço porque eu me recusava a morrer de fome enquanto ele estivesse ali, me tirando o restante de paz.

Ana Merak - Dever e HonraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora