POLÍTICA

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Os dias passam sem ser vistos quando estamos imersos em atividades repetitivas. Uma mesma rotina cheia de atividades captava toda a minha energia, sem dar a chance de eu sequer pensar em algo fora daquele ciclo inacabável. Acordar, tomar café da manhã, estudar, estudar mais, almoçar, pintar, ensinar a Valenius, aprender a arte da luta com meu avô, jantar, e, por fim, dormir. Eu mal encontrei tempo para sair ao encontro de novas ervas para o meu herbário. Os domingos, que normalmente eram de completo ócio, foram completamente voltados para os preparativos finais do meu aniversário, com provas de vestido, de comidas e ensaios para que tudo ficasse perfeito dentro do castelo. Ainda teríamos outra festa e eu quis contribuir ajudando a fazer alguns adornos. Havia também o fato de que o filho do príncipe, Gregório Bátori, estava chegando para me ver. A troco de nada. E ele já ficaria para o meu aniversário.

Quem estava mais transtornado com tudo era o meu pai. Pude jurar que seus grisalhos prematuros aumentaram um pouco com todas as solicitações de revisão, notícias de mercadorias atrasadas nas estradas por todo tipo de motivo e, claro, o clima se tornando instável.

Os empregados do castelo também trabalhavam incansavelmente para fazer dos quartos de visitas os lugares mais confortáveis do mundo. Tivemos tantas confirmações de presença, e até mesmo pessoas se oferecendo para ir, se convidando, que precisamos enviar cartas aos vizinhos pedindo apoio. Para a minha grande surpresa, todos se prontificaram a hospedar uma quantidade de gente. Preferimos aceitar a ajuda dos Leonus porque sua sede ficava mais próxima da nossa e, se chovesse, não teríamos complicações com carruagens perdidas. Talvez fosse o fato de o filho do príncipe estar indo até a festa que estava causando tanto alvoroço.

Foi uma manhã calma quando recebemos os primeiros homens da comitiva real. Avisaram que em breve Gregório chegaria, nos dando tempo para alinhar tudo. Eu estava nervosa, pois nunca tinha visto um membro da família real. Segundo o meu avô, o pai de Gregório, o príncipe da Transilvânia, investia em uma tentativa política de casá-lo comigo. Isso acontecia porque de todos os senhores de terra dali, vovô era o único que não se submetia a nenhuma autoridade. Em contrapartida, ele não aceitou também o título de conde. Principalmente pela relação política complicada entre a Transilvânia e a Valáquia, que era de onde o senhor Vlad, de quem vovô já fora subordinado, vinha. Estávamos do lado Otomano da situação, do lado romeno, e não era por acaso. Originalmente as nossas terras ficavam na Valáquia cristã. A traição do vovô sobre o senhor Vlad foi tão grande que mudou a configuração política e geográfica da região. Era problema o suficiente do qual vovô já tinha se arrependido. As terras de Vlad não ficavam muito longe dali e estavam há um tempo abandonadas. Desde que o Conde Vlad deixou a Valáquia, o território não tinha um senhor. Vovô vistoriava o lugar de vez em quando, o que seria considerado traição se fosse descoberto pelo povo da Transilvânia, e, pior, ele podia, mas não tomava o lugar para ele, o que ia contra os interesses políticos do nosso lado.

Trocando em miúdos, vovô fazia piadas sobre Vlad ainda estar vivo e que uma lição de traição já era o suficiente. Cheguei a perguntar como ele se sentiria se eu quisesse me casar com o príncipe herdeiro. Ele disse apenas que sentia a cabeça fora do corpo, já que possivelmente haveria alguma pressão para coordenar uma incursão de conquista sobre a Valáquia. Também disse que tinha certeza de que eu não escolheria o herdeiro porque não seria o meu tipo de homem. Confesso que duvidei das palavras dele. Talvez porque eu não quisesse dar o braço a torcer. Ainda assim, dediquei longas horas do meu tempo a pensar nos problemas que teríamos com essa união, os conflitos que se desdobrariam.

As notícias corriam as terras como o vento, e os condes estavam interessados também em fazer um enlace com os Merak, ainda que fosse um pouco traiçoeiro tirar a pretendente do primeiro herdeiro da Transilvânia. Tanto interesse ocorria pelas vantagens estratégicas da localização das nossas terras, mas principalmente porque meu avô começou a negociar a venda de suprimento bélico de alta qualidade, que ele mesmo fazia. A parte de ele fazer ninguém sabia, além de nós. Ele era criterioso nas vendas e não negociava com quem queria fazer guerra por perto, ainda por cima cobrava até os dentes do comprador, de tão careiro. Estávamos prosperando nesse sentido e o desequilíbrio de nosso povo ter que pagar tributos mais altos por vovô não aceitar as propostas do príncipe desaparecia aos poucos.

Ana Merak - Dever e HonraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora