A minha vida durante o dia já não fazia mais sentido. Ainda que eu prestasse atenção nas atividades e executasse tudo com a maior precisão possível, eu só conseguia pensar longe, divagar em tudo o que vi na noite anterior. Demorei para entender que naquela altura eu e Valenius compartilhávamos muitos segredos. Quando os nossos olhares se cruzavam, eu sempre sentia um arrepio subir pela minha coluna. Isso era pista de nossa sinestesia, do quanto ele e eu estávamos em sintonia. Era um mundo novo, uma extensão muito quista, além da realidade onde eu estava infeliz.
— Ana. — Papai passou a mão na frente do meu rosto.
Conferi o papel e não havia erro na lição.
— Sim? — Olhei para ele, confusa.
— Não ouviu o que a senhorita Gueorgiana disse? — Questionou, aparentemente incomodado com uma mísera distração.
— Ora, senhor Alioth, não precisa se preocupar, não é o momento de discutir sobre isso. — A mulher estava com um sorriso cúmplice no rosto.
— Qualquer momento é um momento, senhorita. — Papai sorriu brevemente e depois olhou para mim.
— Não, eu não irei para um internato. — Levantei da cadeira, assustada, com o coração acelerado.
Não havia outro assunto polêmico que estivesse ligado com a minha educação.
— De onde você tirou isso, Ana? — O meu pai olhou atônito.
— Eu... Não sei. — Confundi-me no emaranhado de meus sentidos.
— Oh! Nem pense em ir para um internato, pois espero ser a sua educadora por muito tempo. — E, mais uma vez, ela abriu aquele sorriso incômodo.
Foi naquele momento que cheguei a cogitar que ir para o internato não era uma ideia tão detestável.
— Bem, a senhorita Gueorgiana sugeriu que poderia organizar a sua festa de apresentação para a sociedade. Você já está chegando na idade. Os preparativos precisam ser acertados com antecedência para que não sejamos pegos desprevenidos. — Meu pai explicou enquanto andava de um lado para o outro, com as mãos atrás das costas.
Meu peito doeu, o coração ficou pesado. Senti uma raiva sobrenatural tomando conta do meu corpo e, instantaneamente, respondi enquanto tremia:
— Eu não quero que ela organize a minha festa! — Respondi de supetão enquanto apontava para a mulher com o indicador.
— Ana, isso não são modos. — Meu genitor respondeu enquanto me olhava com perplexidade.
— Eu não quero uma festa! — Gritei, me sentindo ameaçada. Acuada contra a parede.
As lágrimas não ficariam guardadas por muito tempo. A minha respiração saía irregular.
Não esperei para que o meu opróbrio na frente daquela mulher ficasse completo. Saí da biblioteca, onde estava estudando, com a cabeça baixa e o coração martelando na minha caixa torácica. Cada passada dura que eu dava era com raiva, descontando no piso de pedra enquanto tomava a direção do meu quarto. Já havia me chegado aos ouvidos alguns assuntos sobre aqueles tipos de festa. Por alto, eu já sabia do que se tratava apesar de nunca ter ido a uma. Pelo que diziam, era um grande momento na vida e eu sonhava com ele. Estava esquecida de que a minha data se aproximava e nem tinha ânimo para lembrar. Puxando da memória, eu resgatei que já lera nos livros sobre o evento, e na ocasião eu imaginava como a minha própria festa poderia ser.
Entrei no meu quarto, enraivecida, e segurei a porta aberta, pedindo com o olhar para que Valenius entrasse. Ele atendeu ao pedido silencioso e eu tranquei o quarto por dentro. Sentindo-me em um local seguro, eu desabei em lágrimas.
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Ana Merak - Dever e Honra
FantasíaAna Merak descende de uma família que se encontrou com a magia em condições adversas. A mãe de Ana era humana, mas foi recrutada para lutar pelo equilíbrio do mundo. Em meio ao caos da vida, a prestigiada Lira Merak deu à luz suas filhas, e teve uma...
