Era quase impossível andar pelo castelo sem esbarrar em alguém pelos largos corredores.
Como uma parte importante do planejamento logístico era abrir espaço de circulação para as centenas de convidados, tínhamos guardado muitos objetos e móveis em algumas salas. A maioria dos objetos, na verdade. Principalmente os mais frágeis, os mais antigos e os mais valiosos, que foram trancados no quarto de Barakj. E, mesmo depois desse esforço hercúleo, o castelo e as imediações estavam lotados. Quem quisesse ter as suas escapadas românticas precisaria de muita perspicácia para não ser visto.
Isso porque alguns estavam hospedados nos castelos vizinhos.
Quando enviamos os convites, eu não imaginei que todos se fariam presentes. Nem se comparava ao aniversário de Ana. O festejo de anos da minha filha foi um mero jantar se comparado à ocasião de seu casamento. Havia muita curiosidade sobre tudo o que nos cercava e o fato de Ana não ter aceitado os supostos melhores pretendentes deixou muita gente intrigada. Alguns, que antes não tiveram a oportunidade de vê-la de perto, não dispensaram a ocasião, principalmente para estabelecer algum laço, ainda que mínimo.
Ana recebeu montanhas de presentes. Foram tantos que, em certo ponto, foi necessário acomodar em uma das minhas casas que ficavam vazias, na vila. E havia de tudo entre os regalos, desde expressões tradicionais, como objetos de uso do lar, até artigos culturais específicos cuja utilidade precisaria ser desvendada. Vieram em caixas, sacos, carroças... Ana ganhou móveis, então eles não tinham outra forma de chegar que não fosse de carroça. Até uma carruagem nova a minha filha ganhou. Era imensa, azul e dourada, com espaço para toda uma família. Segundo o conde que a presenteou, era para que coubesse todos os filhos. E, de outro nobre, Ana ganhou belíssimos potros. Jovens e viçosos equinos. Entre os presentes havia grandes peças de tecidos muito ricos, daqueles que davam trabalho para serem encontrados para comprar. Às vezes o dinheiro não bastava. E os noivos ganharam muitas joias, algumas em pares, uma para cada um deles, como um par de broches em formato de coração. A lista era interminável, parecia que crescia mais a cada vez que era verificada.
Em compensação, não economizei na festa. Estava tudo decorado com muito esmero, para emanar energia de abundância e felicidade. Havia muitas flores especialmente cultivadas em estufas distantes do castelo. Foram trazidas em seus próprios vasos e não murchariam. Os arranjos eram enormes. Grandes ilhas de flores por todos os espaços. Rosas vermelhas, amarelas e azuis. As últimas eram um mistério para mim, ainda que já houvessem me explicado como eram pigmentadas. Tinha um significado naquelas cores, pelo menos para a nossa família. Vermelho era o dragão, o sangue dos inimigos e a nossa busca incessante por justiça. Vermelho era para os Merak e os Alioth, que vieram da desgraça e ainda assim sobreviveram. Amarelo representava os Merak, principalmente Lira. Amarelo era a magia, a abundância, a permanência no tempo e todos os tesouros brilhantes que a existência guardava. Amarelo, como o sol radiante, a lua brilhante e as estrelas cintilantes. Amarelo, o fogo da fênix, o renascimento e a luz que guia nos tempos difíceis. E o azul era de Ana. A sua nobreza que ia além da posição. Seu comprometimento com o dever e a honra. Azul era de nossa inteligência, e um sinal para a sua sensatez. Escuro, pela força do nosso orgulho. Azul escuro era a felicidade de ter Ana, de possuir a nossa família unida.
Colocamos algumas estruturas de madeira para cobrir a extensão da entrada e de boa parte do jardim, para que ninguém ficasse sob o sol castigante. Essas estruturas foram forradas com tecidos brancos que faziam sombra. Nesses tecidos, por ideia dos Luppus, estavam penduradas dezenas de pequenas esculturas de sóis, todas pintadas de amarelo. Não sei como conseguiram, mas a família do noivo arranjou cordas douradas que foram entrelaçadas aqui e acolá, criando um ar de sonhos. Muitos bancos de madeira foram colocados em fileiras para que as pessoas pudessem se sentar.
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Ana Merak - Dever e Honra
FantasiaAna Merak descende de uma família que se encontrou com a magia em condições adversas. A mãe de Ana era humana, mas foi recrutada para lutar pelo equilíbrio do mundo. Em meio ao caos da vida, a prestigiada Lira Merak deu à luz suas filhas, e teve uma...
