INESPERADO

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O dia amanheceu nublado. Abri a janela para olhar as nuvens grandes e pesadas, apenas para ser atingida pelo vento gelado que me fez arrepiar dos pés até a cabeça. Fechei rapidamente e acendi uma lamparina. Vesti as minhas roupas, sozinha, enquanto me olhava no espelho. Eu estava mais velha do que me lembrava. Ou, talvez eu me sentisse madura depois da noite anterior, que mudou a percepção sobre minha própria figura. Meu coração acelerou quando me recordei do beijo de Ionel. Toquei meus lábios macios com as pontas dos dedos e vi meu rosto ficando vermelho, no espelho. A súbita compreensão fazia com que me sentisse envergonhada. Por outro lado, eu gostava de Ionel. Ele era atraente e um bom amigo. Isso é, quando não estava agindo como louco.

Sacudi a cabeça para limpar a mente da imagem do beijo que retornava o tempo todo. Era como uma obsessão que eu não alimentava. Forcei-me a pensar em outros assuntos e a lembrança de beijar uma mulher também apareceu.

— Ai meu...! — Soltei um grunhido perturbado.

Eu não me arrependia ou me sentia mal por aquela experiência, muito pelo contrário, havia uma normalidade grande até demais, entretanto, era pecado. Todas aquelas experiências eram pecados. Em uma única noite cometi um conjunto de pecados e garanti a minha estadia no inferno. O músculo latente do meu peito bombeou com mais força, segurei no medalhão, apertando-o em busca de conforto. A imagem, face no espelho, expressava a culpa que eu sentia.

Então emergiu a memória de que havia uma parte da Igreja caçando a minha cabeça em uma estaca. Antes do ocorrido eles já me odiavam, imaginei como seria se eles soubessem daquilo. E se descobrissem? Se o Altíssimo revelasse para algum deles, seria o meu fim.

Abri rapidamente a porta do meu quarto e encontrei Valenius já posicionado. Pelo seu rosto cansado era possível entender o quanto a noite fora cruel com ele também.

— Vou até a capela para rezar. — Cochichei ao pé do ouvido dele e olhei para os lados.

Nenhuma palavra foi pronunciada por aquela boca, ele somente me acompanhou. O castelo estava quieto, não cruzamos com sequer uma alma viva. Era inusitado. Os sons dos meus passos chegavam a ecoar pelos cômodos. Aquele ambiente aumentava a minha tensão. Fazia eu sentir que meus pecados estavam expostos.

Vi pessoas, na direção da estrebaria, e respirei aliviada. Não tinha explicação para aquilo, porém, me fez refletir sobre o quanto Valenius conseguia ser silente, mesmo vestindo meia armadura.

Caminhamos até a capela, que já estava aberta. Poderíamos ter entrado pelo interior do castelo, contudo, era melhor ir por fora. Senti falta de ar enquanto ouvia meus passos ecoando dentro daquele espaço. Olhei para os lados, com uma sensação estranha. Valenius também estava inquieto. Andamos até o lugar onde deixávamos velas para as pessoas queimarem. Peguei uma e a acendi. Valenius fez o mesmo, então repentinamente olhou para trás.

— O que aconteceu? — Questionei-o, preocupada.

— Não se preocupe. O castelo está muito soturno até para a minha audição e isso está me incomodando. — Compartilhou seu desconforto.

— Entendo bem. — Respirei fundo e coloquei a vela em seu respectivo lugar, junto a outras que já queimavam. As pessoas tinham muita fé apesar de tudo.

Eu e Valenius nos ajoelhamos frente ao altar. Não tive certeza do que ele estava fazendo, todavia eu paguei as preces que Jis tinha determinado. Foi um momento insólito, diferente das missas. De repente uma nesga de raio solar incidiu nos vitrais, jogando projeções coloridas sobre nós. Olhamos ao mesmo tempo; era uma normalidade. Ouvimos barulhos do lado de fora. Senti um súbito conforto.

Ana Merak - Dever e HonraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora