GUEORGIANA

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Dizem que, às vezes, o nosso anjo protetor não combina com o de outra pessoa.

Naquela noite, Gueorgiana jantou conosco. Ela receberia tratamento distinto, pois era diferente dos demais graças à sua posição de preceptora. O rigor dos costumes exigiam que tivéssemos certa deferência por aquela companhia. Por mais que ela sorrisse e fosse suave, eu não suportava a sua presença. Cheguei a cogitar que, anteriormente, ignorei aquela existência por não simpatizar com ela.

Não havia um único aspecto repreensível na postura de Gueorgiana. Era boa nos modos, nas roupas, nas expressões e até nos gestos. Fiquei ressentida da minha própria aspereza, uma vez que não queria tornar a vida de uma inocente mais difícil do que já era e, eu parecia mimada naquele contexto. Então, apenas me calei. Impaciente, fui dormir mais cedo. Acabei rendida ao sono antes do que eu imaginei.

Acordei no dia seguinte sentindo a minha coxa melada e um cheiro diferente no ambiente. Cheiro de sangue, um pouco fraco e estranho. Levantei a colcha para verificar e vi o líquido vermelho amarronzado. Eu estava pronta para aquele acontecimento. Muitas das mulheres da cozinha se reuniram um dia para conversar sobre esses assuntos das regras e me ensinaram o que eu não sabia. Foi assim que, diferente de muitas meninas, eu não entrei em pânico por ignorância. Levantei-me da cama, abri a porta e chamei por Valenius.

— Bom dia, Ana. — Cumprimentou sem muita expressão.

— Bom dia, Valenius. Chame Solis, por favor? Avise-a que meu período chegou. — Pedi, me sentindo estranhamente pesada e inchada.

— A sua lua vermelha. — Ele sorriu, como se estivesse orgulhoso. — Agora você pode ser uma guerreira.

— O que tem a ver...? Aliás, isso é a lua vermelha? Como você sabia? — Acariciei meu queixo.

Ele virou as costas e foi cumprir a minha ordem. Era seu novo hábito irritante: ignorar as minhas perguntas. Senti-me abandonada e vazia quando vi ele partir. As lágrimas correram soltas até eu perceber que não havia motivos para chorar.

Retirei o lençol da cama e em breve Solis apareceu no quarto para me auxiliar. Trouxe consigo alguns aparatos que sua mãe guardava para mim, na cozinha. Ajudou-me a me lavar e a trocar de roupa.

Fiquei emocionada pelo apoio e comecei a chorar. Ela me abraçou.

— Minha amiga, não chores. — Riu com suavidade. Não era deboche, mas conforto.

— Não consigo controlar. — Resmunguei, com a cabeça apoiada em seu ombro.

— Então chores. — Ela deu uma batida nas minhas costas. — Chores o quanto precisar.

E eu chorei.

Assustei-me quando, sem aviso prévio, a porta se abriu sob os protestos irritados de Valenius, e Gueorgiana entrou. Pulei para trás, assustada. Solis ficou na minha frente com os braços estendidos.

— O que está fazendo? — Questionei com rispidez a mulher que segurava uma bandeja.

— Perdoe-me, senhorita Merak. Soube de sua condição e trouxe um chá. — Ela sorriu como se fosse inocente.

Ela não era. Gueorgiana invadiu a minha privacidade em um momento sensível.

— Por algum acaso Valenius não contestou a sua entrada? De que me serve um guarda se qualquer um entra no meu aposento? — Rapidamente recordei-me que estava no quarto de meu avô, porém não era uma questão que validava a ação dela.

Ana Merak - Dever e HonraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora