UMA INICIATIVA

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Acordei no escuro total. Saí da cama, completamente dolorida, como se tivesse sido pisoteada por um garanhão. Meus olhos estavam inchados e doloridos. Abri a janela, que Valenius tinha trancado bem, e vi o dia bonito lá fora. Céu azul, muitos tons de verde na natureza. A vida seguia independente da minha dor.

Lavei o rosto na água que já tinha sido trocada pela manhã. Não vi quando entraram. Troquei de roupa, me olhei no espelho e vi a monstruosidade inchada que era o meu rosto. E com uma espinha grande no centro da testa. Meu cabelo estava se tornando mais oleoso também. Os pelos pareciam mais grossos e pigmentados. Não sei como só notei naquele dia. Talvez porque eu tenha acordado de mau humor.

— Céus, quem é você? — Perguntei ao espelho, irritada. Fiz uma careta de raiva.

Alguém bateu na porta.

— Pode entrar. — Autorizei, sem prestar muita atenção.

Pelo reflexo vi o meu pai adentrar ao quarto e se aproximar.

— Bom dia, minha filha. — Ele me abraçou e beijou o topo da minha cabeça.

— Bom dia, papai. A benção. — Cumprimentei-o, sentindo seu carinho paterno aquecer até os meus ossos.

Quando ele me soltou, vi que sua mão estava machucada.

— Se eu não fosse mulher, você não precisaria se machucar para me defender. — Falei cheia de culpa enquanto analisava a pele que fora macerada.

— Ana, olhe aqui. — Ele pediu puxando o meu queixo para cima e eu obedeci. — Não foi por você ser mulher, mas é porque você é mais nova e é a minha filha. A função das pessoas mais velhas é proteger as mais novas e o mesmo se aplica na relação entre pais e filhos. Então, pare de se martirizar.

— Pai... se eu fosse homem...

— Ah! Que bobagem, Ana. Quem aqui queria ser pai de um homem? Você é a alegria da nossa casa. Veja o seu avô, a felicidade que ele sente comprando rendas, fitas e essas coisas que você usa. Ainda que não gostasse desses enfeites, ele daria um jeito. A menos que tivéssemos um rapaz muito vaidoso em casa, acho que isso não seria tão possível pelas normas sociais que seguimos. — Tentou me consolar do jeito dele.

— Ele ia ensinar a arte da guerra e você levaria seu filho para todo canto, sem se preocupar. — Expus. Naquela altura eu já estava irritante, porém meu ponto de discussão era verdadeiro.

— Você pensa mesmo que eu seria um pai desnaturado se tivesse um filho? Por quem me tomas? — Colocou a mão no peito, exageradamente ofendido. Eu ri. — Está pensando que sou o seu avô? Eu não jogaria meu menino aos inimigos apenas por ser menino.

— Não deixam o meu nome em paz. — Vovô entrou no quarto pela porta que estava aberta.

— Ana acordou ressentida por ser uma filha. Queria ser filho. — Papai explicou de um jeito muito errado, porém engraçado.

Vovô colocou a mão espalmada sobre o peito, horrorizado.

— Já temos homens demais neste castelo. — Parou na minha frente e acariciou meu rosto. Vovô não tinha nenhum machucado da noite anterior. — Como você está, Pituquinha?

— Como um dejeto. — Respondi ainda azeda.

Ele revirou os olhos.

— Trate de melhorar porque os músicos do seu aniversário já chegaram na vila. Hoje eles se encontram com os que temos por aqui. — Avisou. Ele sabia que eu queria um ensaio prévio no castelo, mais porque eu estava desejosa de ouvir a pequena orquestra.

Ana Merak - Dever e HonraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora