NOTÍCIA

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Dois meses se arrastaram cheios de dias cinza e penosos. Quando estava sozinha eu me esforçava para me levantar, pois sentia o vigor voltando aos poucos e não suportava mais me ver como uma parte daquela cama. Eu quis me mover, não por teimosia, mas porque ficar na cama não era bom para mim. E naquela solidão pedida, ambicionada, descalculada, eu me vi com tempo suficiente para meditar sobre Valenius. Sobre nós. Naquela altura eu já sentia saudades da companhia constante dele. No fim eu queria surpreendê-lo mostrando que já podia andar, mesmo que com alguma dificuldade. Para substituir a imagem da Ana doente que estava gravada nele.


No espaço intrínseco daquele tempo existiu outro intermediador trabalhando a favor de Valenius, e este estava além da minha subconsciência, sendo ele o meu próprio pai. Com muita serenidade o meu pai me convencia de que a realidade era distante dos cenários imaginados por mim, pois ele estava além de nós e podia ver em plano aberto o que a nossa inexperiência e pontos de vista não mostravam. Papai nunca ousou dizer que sabia como era a dor que eu sentia, não. Apesar de saber como era ter uma filha morta, ele não ousou dizer que entendia. A sua afirmação era sempre sobre o presente e a realidade que se desenvolvia. E, com a ajuda dele, eu consegui entender que precisava ter uma conversa franca com Valenius, porque só era possível resolver assim, enfrentando a situação. Eu estava adiando para que pudesse me sentar frente a frente com ele para conversar.


A dor do luto estava se assentando aos poucos. Eu já não chorava tanto, apesar de sentir aquele constante aperto no peito. Era impossível de controlar, pois, uma vez que se é mãe, nunca mais deixa de ser. Não existe revogação dessa condição, pois ela é, acima de tudo, psicológica. Quando se aceita a maternidade, ela acontece, e não há o que acabe com isso. Em resumo, eu era mãe de duas crianças e seria até a morte. A minha morte. Com o luto eu aprendi muito sobre a vida e a morte. Aprendi que não há solidão maior do que o sofrimento de uma mãe. E aprendi que ninguém no mundo será capaz de entender isso a não ser que esteja no mesmo lugar, pisando através do mesmo caminho de pedras pontiagudas.


Mais uma noite deitou sobre a Transilvânia. Entediada e sozinha, desci da cama e me arrastei até a porta, sentindo-me contente por fazer aquele caminho, mesmo que com alguma dificuldade. Tudo ficaria normal, a vida seguiria.


Eu só não contava com a movimentação agitada do outro lado.


***


— Tenho uma notícia e não é das boas! — Jis estava esbaforido. Ele tinha nos alcançado na frente da porta do quarto de Ana.


Estávamos eu, Polaris e Tellūris.


— O que está acontecendo? — Perguntei ao velho capelão.


Ele me fitou com os olhos cheios de terror. O meu sogro, a minha mãe e o meu pai apareceram junto a Veteri, marchando pelo corredor. Era uma reunião. Ele tinha chamado uma reunião. A última que se juntou a nós foi Pricila. E foi também a primeira a falar.


— Por quê nos chamou?


— Não vou fazer rodeios, Pricila. — Ele disse baixo, mas com urgência. — Há um batalhão acampado nos Carpaţi, fora dos limites das terras Merak. A seita inteira está lá junto a soldados de um barão que foi convencido a combater o mal do diabo. Vejam, eu recebi essa missiva.

Ana Merak - Dever e HonraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora