Eu estava cansado da fatigante viagem até Werzov e meu corpo pedia desesperadamente para que eu descansasse, sucumbisse de forma impiedosa sobre o meu colchão, mas eu tinha tanta saudade de minha Ana, presa em mim como um grilhão, que não poderia dormir antes de vê-la. Era inconcebível para mim.
Entrei no castelo, ansioso, e fui recepcionado por rostos contentes com a minha chegada.
— Avise a Pulchra que estou aqui para comer. — Pedi para uma das moças da cozinha. Já não lembrava o seu nome depois de todo aquele tempo. Ela não era das mais próximas.
— Seja bem-vindo ao lar. Pulchra não trabalha mais aqui, senhor Alioth. — Ela avisou com um tom respeitoso.
Fiquei surpreso. Ergui as sobrancelhas já prevendo o trabalho que teria para viver sob as novas regras da grande herdeira, que, por um acaso, também era a minha amada filha.
— Estou grato pela recepção. Então avise a quem estiver no comando, por favor.
— Sim senhor. — Ela concordou antes de sair.
Segui adiante, capengando até o quarto de Ana. Arrastando a minha carcaça cansada. Parecia-me que aquele castelo tinha triplicado de tamanho e os corredores não acabavam mais, ou era apenas a ansiedade que pregava uma peça em meus sentidos. Até senti um alívio quando cheguei no corredor dos nossos dormitórios e avistei Alin e Aleana, que estavam em seus postos diante da porta, discutindo. Quando me viram, prestaram um cumprimento reverente. Parei na frente da porta e respirei fundo, tentando acalmar as emoções, segurando a vontade de chorar. Se estava tudo tranquilo e ninguém veio me preparar para alguma notícia, era por estar correndo tudo dentro dos conformes. Abri a porta, entrei no quarto e vi a minha filha sobre a cama. Fiquei ainda mais emocionado por tê-la ali viva, respirando, intacta. Quase chorei. Os dias longe dela foram um martírio sem fim. Aproximei-me e observei ela em seu sono tranquilo, como um anjo. Ana já estava crescida, mas para mim ela sempre seria a criança que colocamos no mundo e protegemos acima de tudo, com as nossas vidas.
Eu depositei um beijo terno e suave sobre a sua bochecha e ela acordou, contudo, ao invés de falar o meu nome, ela chamou por Valenius.
Indignação, foi o sentimento indubitável que me tomou. Ana me viu e abriu um sorriso largo, seus olhos brilharam e ela se jogou em mim, como quando era menina. Minha filha tão amada me recebeu como eu imaginava que seria.
Quando a soltei, sentindo dores no abdome e na coxa, encarei-a. Ela estava diferente do convencional. Eu não era tolo, havia algo entre Ana e Valenius. Sempre houve e eu sabia. Nada escapava aos meus olhos quando se tratava de Ana. Nada. Nem sempre eu podia fazer algo, mas tentava. Aparentemente o sentimento deles floresceu na minha ausência, quando eu não tinha condições de controlar e orientar. Uma dor de cabeça sem fim.
— Ana, eu vou esperar você na sala verde. Vamos ter uma conversa. — Exerci a minha autoridade de pai. Urgia, devia ser naquele momento, eu não poderia esperar. Cada segundo que se desperdiça na vida é um motivo para se arrepender.
Se eles tivessem caído em pecado, não havia tempo a perder. O mundo estava muito avançado e as crianças já não obedeciam às regras. Eu sempre me pegava pensando nas possibilidades mais nefastas de cenários, imaginando como mitigar determinados problemas e escândalos. Naquela altura da vida eu sabia que apenas para a morte não se encontrava uma solução.
Saí do quarto e Valenius estava na porta, sorridente. Nunca tinha visto Valenius tão feliz, então fiquei nervoso. Arrumei a postura e falei com a voz mais ameaçadora que eu tinha, para impor respeito. Senti prazer em ver a alegria se esvaindo daquele rosto jovem do ladrão de filhas.
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Ana Merak - Dever e Honra
FantasyAna Merak descende de uma família que se encontrou com a magia em condições adversas. A mãe de Ana era humana, mas foi recrutada para lutar pelo equilíbrio do mundo. Em meio ao caos da vida, a prestigiada Lira Merak deu à luz suas filhas, e teve uma...
