RETORNO

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— O senhor Merak pagou pelo cavalo. — Valenius comentou casualmente.

— Como você sabe? — Indaguei, curiosa. Era possível que ele tivesse uma informação tão específica?


— Eu ouvi... Por aí. — Disse, olhando pela janela, para as árvores que começavam a brilhar sob a luz do alvorecer.

— Como? Se...

Fui interrompida quando a porta da carruagem abriu, uma mulher entrou e sentou ao lado de Valenius. Lancei um olhar de dúvida.

— Bom dia, querida. Espero que façamos uma ótima viagem.

Façamos? Ela fechou a porta e não desceu. Olhei para Valenius e ele mirou o teto.

— Oh! Você não foi avisada? Serei a sua nova professora. Uma preceptora. — Gueorgiana colocou uma mão sobre o peito, com ar de ultraje.

Era assim que acontecia. Elas moravam com a família por um tempo, enquanto ensinavam as crianças. Porém eu não sabia daquela decisão de meu avô. Eu senti que o meu espaço foi invadido.

Gueorgiana tirou o chapéu enquanto sorria. Eu me sentia sufocada. Precisava de ar, muito ar. Eu sabia que meu avô encontraria Jis pelo caminho, então a carruagem dele estava vazia. Desci da minha e fui para a dele. Esperei por lá, respirando fundo. Controlando os nervos.

Quando ele entrou, tomou um susto. Era justo, visto o que ele tinha me feito passar.

— O que faz aqui? — Questionou, olhando para fora.

Bati no topo e a carruagem começou a andar, junto com toda a comitiva. Naquela manhã eu estava tão farta, que fui tomada por uma ousadia desmedida. O que eu podia fazer? Era a minha natureza. Um fruto não cai longe da árvore.

— Vovô, você contratou Gueorgiana sem me consultar? — Falei para o homem de braços cruzados, com expressão zangada.

— Ora, Ana, você sequer desconfiou? A mulher estava consigo o tempo todo. — Ele sorriu torto.

— Não! Eu nem mesmo preciso de uma preceptora. Pulchra já me basta. — Argumentei. Não queria aquela mulher em casa. Eu já me sentia esgotada.

— Pois terá mesmo assim. — Determinou, sem margens para o debate.

Era lógico que eu iria me rebelar.

— Isso é tão injusto! Nem damos bailes ou recebemos visitas em nossa casa. Não entra gente que venha de fora. — Reclamei. — E depois dessa breve viagem, só consigo pensar que seria um pesadelo ter pessoas espalhando o caos na nossa vida diária.

Ele ficou em silêncio por alguns instantes, me encarando.

— Ana, você admira o vovô? Acha que sou elegante? — Perguntou, desviando o olhar para a janela.

— Sim. — Eu não entendi onde ele queria chegar.

— E quando eu conduzo os negócios, isso faz você sentir orgulho? — Continuou com seu questionário.

Eu não podia responder com uma negativa.

— Sim, vovô.

— Eu estudei para isso. E com o passar do tempo, vim aprendendo mais. Nós nunca paramos de aprender ao longo da vida. Tudo, absolutamente tudo, muda com o tempo, inclusive normas de convivência. Negociar é uma arte que se refina e não é feita para os ignorantes. Veja como os orientais sempre são grandes comerciantes e ao mesmo tempo detém muito conhecimento. Todas aquelas pessoas na vila do castelo dependem de nós. Elas trabalham do raiar ao pôr do sol todos os dias e nós devemos prover em alguns aspectos. Diga-me, Ana, como você vai ajudar as pessoas sendo uma ignorante nas regras e normas? Não basta a força, é preciso o diálogo, a diplomacia. É preciso evitar guerras e batalhas. Para tal, você deve estudar. Dizem que Gueorgiana é muito competente e que por muito tempo ensinou a Dionísio. Sei que ele é arrogante, mas seus modos, no geral, são impecáveis. — Então ele olhou para mim. — Você escolhe se deseja ser conhecida por sua astúcia e postura admiráveis ou por não conseguir conduzir as fortunas de sua herança.

Ana Merak - Dever e HonraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora