A rotina do dia seguinte deixou um gosto constante e acre na minha boca. Como ocorria há meses, acordei com Solis dispondo a água no meu quarto. Ela apenas me cumprimentou e saiu rapidamente do quarto, de cabeça baixa. Eu quase nem me lembrava mais da cor de seus olhos, pois já não os via. Suspirei, saí da cama e fui trocar de roupa. Coloquei um vestido simples que já estava na altura de minhas canelas, pois eu tinha crescido consideravelmente nos últimos tempos. Era preciso fazer outros modelos novos, mas até vovô estava desanimado demais para as compras.
— Bom dia, Valenius. — Cumprimentei meu guarda, ao sair do quarto.
Ele não respondeu. Estava com cara de poucos amigos. Uma expressão nada amistosa.
— Sinto muito se compliquei a sua vida, Valenius. Nunca foi a minha intenção. — Suspirei, já cansada daquele dia que mal tinha começado. A minha cabeça doía sem dar trégua.
— Você não fez nada demais. Eu só tive uma noite de sono ruim. — Resmungou como se enganasse alguém.
Sentei-me à mesa e encarei meu pai e meu avô, ambos com semblantes pesados. Em pouco tempo apareceu Gueorgiana, que era sempre pontual. Exibia sua pele de pêssego, muito macia e descansada.
— Bons dias. — Cumprimentou com um sorriso no rosto.
Eu e meu avô respondemos sem energia. Já meu pai, arrumou a postura e a cumprimentou como um rei. Eu odiei assistir aquela parvoíce. Queria apontar meu dedo para os rostos deles e fazer um escândalo. Ao invés disso, apenas fitei a aliança de casamento no dedo do meu pai.
— Parece que estás um pouco indisposta hoje, senhorita Merak. Se desejar e precisar, podemos adiar a lição. — Gueorgiana ofereceu, muito diligente.
— Não, nem devemos pensar nessa possibilidade absurda. Tenho sede de sorver o mais rápido possível todo o conhecimento que você tem para mim. — Repliquei quase desesperada.
Papai me lançou um olhar atravessado.
— Tudo o que a senhorita tem para ensinar. Perdoem a má educação. — Corrigi com raiva. Fui passivo agressiva.
— Estou certo de que as atividades de Ana precisam exigir mais de sua energia, para que ela durma melhor. Não tema, senhorita, pode intensificar as lições. — O traidor parvo permitiu. Queria que eu desmaiasse de cansaço, mas ele não me conhecia. Honestamente nem eu mesma me conhecia.
— Não seja tão severo, senhor Alioth. — A mulher sorriu para ele como se tivesse a própria sorte encarnada à sua frente.
Após o desjejum, seguimos para as primeiras lições do dia. Daquela vez eu descrevi quais eram os nomes dos reinos vizinhos, das famílias reais e suas principais atividades econômicas. Era complexo, cheio de detalhes, mas eu me forçava a lembrar. Quando eu já soubesse tudo aquilo, não haveria mais motivos para ela permanecer.
A próxima lição foi de dança. Era o quarto tipo de dança que eu aprendia, para me preparar para os eventos sociais. Meu pai era meu par e a todo momento Gueorgiana encostava nele para mostrar um passo ou uma execução.
Aquilo estava me enlouquecendo.
Depois do almoço mergulhei em lições de cálculo. Muitas. Uma montanha delas.
Quando o jantar chegou, eu estava exausta. O mesmo clima de velório persistiu. Comemos em silêncio. A comida desceu seca pela minha garganta estreita de raiva.
Fui para o meu quarto e fingi que estava dormindo. Quando o véu da noite terminou de cair sobre aquelas terras da Transilvânia, esgueirei-me junto às paredes, vestida com uma capa simples que eu precisava para sair do meu quarto. Entrei de maneira sorrateira no aposento de Valenius e o surpreendi sem camisa. Ele se assustou. Coloquei um dedo indicador sobre a boca do jovem, para que ele fizesse silêncio.
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Ana Merak - Dever e Honra
FantasiAna Merak descende de uma família que se encontrou com a magia em condições adversas. A mãe de Ana era humana, mas foi recrutada para lutar pelo equilíbrio do mundo. Em meio ao caos da vida, a prestigiada Lira Merak deu à luz suas filhas, e teve uma...
