Dizer que estou minimamente animado para essa visita é mais do que bondade. Meu pai me aporrinhou o juízo durante muitas semanas, dando-me longos sermões sobre responsabilidades e a necessidade de um matrimônio. Estamos analisando todas as pretendentes em idade para o cortejo e Ana Merak é uma delas. A Reclusa, é como alguns a nomearam. Correm pelas terras os mitos e lendas sobre ela. Poucos são os que viram seu rosto, mas dizem que tem pai e mãe belos como a alvorada e o crepúsculo.
Erro ao citar a mãe no presente, pois Ana Merak não tem a mãe.
Barakj é nosso vizinho mais próximo e tem boas terras, estrategicamente posicionadas, porém, na minha humilde opinião, é um tirano. A bisneta nem mesmo pode usar o sobrenome do pai, a linhagem que se seguiria naturalmente. Além disso, é um homem bizarro de tão longevo na idade. Quando muitos morrem com no máximo cinquenta anos, ninguém mais sabe dizer quantos anos ele tem. Pela janela da carruagem vejo os campos sendo arados e me interesso pelo terreno plano, bom, como disseram que era. Eu tenho apreço pelos negócios e quero fazer boas alianças, contudo não tenho paciência para o romance.
São os ossos do ofício que preciso aceitar.
Convenci-me de que se Ana Merak tivesse cabelos e todos os dentes, já seria o suficiente para mim. Não me interesso pelas futilidades artísticas das quais ela parece gostar, mas se me der herdeiros saudáveis, pode fazer o que desejar da vida.
Passamos pela vila bem organizada e com grande potencial de crescimento. Por ser muito antiga, poderia estar destruída e carcomida pelo tempo, entretanto, tudo envelhece com charme e garbo. Entramos pelo portão do suntuoso Castelo Merak. Uma construção imponente e sólida, com grandes torres lutando contra o céu. Talvez fossem capazes de alcançar o dragão de São Jorge, na lua.
Minha família é recepcionada pelos serviçais. Somos avisados de que o senhor Merak e o senhor Alioth estão recolhidos, resolvendo assuntos de urgência, mas que em breve nos receberão.
Vejo que meu pai não fica nada feliz com o fato de não estarem a postos.
— A família da jovem deve se esforçar para fazer dela um atrativo, Darius. Não podemos demonstrar muito interesse porque não é bom aceitar um dote pequeno. Não se encante pela beleza dela. — Adverte com um sussurro enquanto entramos.
O desgosto estampado em seu rosto.
Eu só quero conhecer a tal Ana, firmar algum laço com Barakj Merak e voltar para a minha casa o mais rápido possível.
Somos levados até uma sala com móveis sóbrios e decoração predominantemente azul escuro com dourado. Móveis escuros bem preservados nos convidam a descansar e beber o que há sobre um aparador de madeira e vidro colorido. Tudo limpo e preservado. Obsessivamente asseado.
Vejo meu reflexo no espelho. Está tudo no lugar: meus cabelos loiros, meu queixo fino e os olhos castanhos. A roupa nem amassou muito durante a viagem.
A porta se abre e observo a entrada do já conhecido Barakj, com seus cabelos brancos, altura de montanha e olhar assassino. O sorriso mole e fácil, capaz de enganar os desavisados. É seguido pelo pai da jovem, estou certo. Um sujeito bem apessoado, de cabelos pretos e olhos verdes profundos.
— Sejam bem-vindos ao meu lar, senhores! — Barakj abre os braços em um gesto receptivo. — Faço gosto de tê-los por aqui.
— Barakj! Há algum tempo que não nos vemos. — Meu pai sorri com a falsidade de sempre.
Barakj nos convida para sentar, com um gesto.
— A minha neta já vem, está se arrumando. Vaidades de moça virtuosa. — Barakj começa a valorizar seu peixe.
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Ana Merak - Dever e Honra
FantasyAna Merak descende de uma família que se encontrou com a magia em condições adversas. A mãe de Ana era humana, mas foi recrutada para lutar pelo equilíbrio do mundo. Em meio ao caos da vida, a prestigiada Lira Merak deu à luz suas filhas, e teve uma...
