PRÉ-NUPCIAL

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– Ah! Isso consumiu muito da minha energia. — Ana suspirou com as mãos plantadas nos quadris.

Ela tinha sovado uma massa à exaustão para fazer um pão recheado para o casamento de Solis. Havia um contingente de pessoas organizando tudo e a minha filha não precisava participar, mas ela quis porque seria um de seus presentes, para mostrar que a tinha como uma irmã, para dar a ela o que o dinheiro não comprava.

— Papai! Preste atenção no que está fazendo, senhor. Quer que o doce queime? — Ela reclamou enquanto gesticulava freneticamente para o fogo alto.

Como sempre nos últimos tempos, Ana me cooptou para ajudar. A dor nos tinha unido ainda mais. Ela tinha amadurecido muito, mas aos meus olhos era sempre uma criança brincando de ser adulta.

— Como reclama... — Resmunguei enquanto diminuía a intensidade do fogo, afastando algumas das madeiras e o alimentavam.

Certas ajudantes de cozinha, ainda muito jovens até para a repreensão, riram da minha pequena desventura. Todos gostavam de ver Ana chamando a minha atenção.

Eu queria que Lira estivesse comigo, vendo Ana recuperar a cor do rosto. O retorno de Pricila foi essencial para a saúde de minha filha. Havia surpresa para mim naquela chegada mágica, mas eu já tinha superado. Nada podia sobrepor o impacto de ter uma esposa que dominava os elementos, e muito menos a experiência que eu já tinha vivido n'O Pomar. Lira estaria feliz preparando doces para aquela amizade que ela certamente aprovaria.

— Por quê esse sorriso bobo, pai? — Ana interpelou com seu olhar indagativo. Estava me estranhando muito naquele dia, talvez por sua agitação.

— Estou pensando na festança. Vou comer como um porco. — Menti. Ou não. Era difícil definir, em parte, porque eu ia mesmo comer muito e aproveitar.

Ana sorriu e deu um tapinha no ar, dispensando a curiosidade. Então ela foi conversar sobre a roupa de Solis enquanto ajudava outra moça a enrolar alguns doces.

— Falando nela... — A moça disse quando Solis entrou na cozinha, acompanhada por Pulchra. Ambas felicíssimas.

O barulho dentro daquele lugar aumentou exponencialmente enquanto elas discutiam os últimos detalhes. Solis estava radiante, como ficam apenas as pessoas que têm a sorte de se casar por amor. E a mãe dela estava plácida, como os pais que descansam sossegados por entregarem seus tesouros a quem convém. Dali a dois dias elas estariam no altar. A capela não estava enfeitada. Todos os Luppus se casavam no jardim, como eu soube. Mas seria Jis a abençoar aquela união.

— Ah! Aí está a noiva! — Jis falou somando-se à turba caótica da cozinha.

Ele pegou um doce e comeu enquanto Solis falava dos últimos detalhes. Quando ele foi liberto da corrente contrária que levava as panelas para serem lavadas, chegou perto de mim. Eu estava tirando o tacho do fogo, Ana já tinha esquecido dele, estava absorta no assunto enquanto opinava.

Jis ficou imediatamente ao meu lado.

— Que sorte estar aqui para ver um cenário melhor. — Ele comentou cheio de satisfação.

— Não acho que é sorte, senhor. É resultado do esforço incansável de todos que prezam pelo bem-estar de Ana. — Repliquei, experimentando o conteúdo da panela. Estava no ponto. — Fiquei com medo de que você viajasse outra vez.

— Não. — Ele sorriu de canto. — Dessa vez a Sua Eminência convocou Petrus. Acho que o tempo dele acabou por aqui. De toda forma eu não iria antes de celebrar a união dos Luppus.

— Eles não são primos? — Perguntei enquanto estranhava um pouco.

— De linhagens distantes. É complexo de entender. — Retrucou sem vontade de explicar.

De repente houve silêncio na cozinha, todos olharam para mim. Ana parecia muito orgulhosa enquanto Solis pegava em minhas mãos.

— Quero agradecer mais uma vez pela casa que nos deu, senhor. Eu e Tenebris teremos uma vida feliz naquele lugar, pode apostar nisso. — Ela agradeceu profundamente enquanto todos comemoravam com curtos gritos, risos e palmas.

Ana estava com as bochechas muito vermelhas e a testa suada, enquanto batia palmas de alegria.

— É um prazer, menina. — Falei, sem querer delongar o assunto.

Eu tinha comprado algumas casas na vila ao longo do tempo, quando alguns vilões quiseram ir para outros lugares, longe dali. Muitas delas estavam fechadas. Quando soube que os noivos ainda não tinham onde morar, que ficariam com a família, resolvi presentear com um novo lar. Um lugar modesto, mas digno o suficiente para construir uma vida confortável, com espaço para criar uns cinco filhos sem que eles se batessem. Era uma casa espaçosa.

Ana daria ouro como presente. Solis era uma noiva bem-aventurada. Era merecido o seu júbilo pré-nupcial. Lembrei-me de quando Ana era criança e eu estava perdido, então Pulchra me ajudou. Eu era grato em um tanto impossível de expressar.

Lira seria uma grande amiga de Pulchra.

Ana Merak - Dever e HonraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora