CONTURBADA

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Da escuridão sem sentido e sem presença para o mundo, foi assim que acordei naquela manhã. Eu sentia a minha cabeça latejar em uma dor que não cessava. Uma dor enjoada, persistente. Eu tinha muita sede, a garganta seca, e não havia água no quarto, para o meu azar. Arrastei-me para fora daquele cômodo enquanto me lembrava do ocorrido. A minha última lembrança era de ver o meu avô na minha porta.

Estava tão cedo que o sol nem tinha nascido por completo. Deparei-me com Valenius chegando para tomar seu posto. Ele me olhou com a expressão preocupada.

— Você está pálida. — Comentou sem a sua compostura habitual.

— Bom dia para você também. E, fale baixo. — Sussurrei e dei um empurrão leve nele para que colaborasse com a minha saúde.

— O que é isso? Tornou-se boêmia? Está bebendo às escondidas? — Provocou em tom moderado.

Lancei sobre ele o meu melhor olhar lancinante.

— Tem água para beber no seu aposento? — Perguntei com a boca ressequida, a língua já pregando no céu da boca.

— Sim.

Ele foi rápido buscar e eu fiquei parada encostada na parede. Como uma planta em um vaso, aguardando pacientemente por uma gota de hidratação enquanto massageava as minhas têmporas com as pontas dos dedos.

Valenius voltou com uma jarra de porcelana cheia de água fresca, a qual eu bebi avidamente. No meu paladar, era a água mais fresca e mais doce de toda a existência. Desceu como uma benção.

— Ana, o que aconteceu durante a noite? Ouvi você chamando pelo seu avô e só não vim ver você porque ele chegou primeiro. — Valenius parecia realmente preocupado.

— Nem vale a pena contar, Valenius. Morfeus resolveu me castigar, mas não se preocupe. — Tranquilizei-o enquanto entregava a jarra vazia.

— Você se lembra de que hoje seus visitantes a acompanham no café da manhã? Quer que eu diga que está indisposta?

Dei um tapa em minha testa. Nem estava me lembrando daquele compromisso. Só podia ser um castigo.

— Ainda bem que são os últimos dessa peregrinação que parece não ter fim. — Reclamei, impaciente. Eu já tinha conhecido quase todos e me desagradado da maioria deles, exceto de Basiliu Narcis. A minha conclusão era de que a maioria dos nossos vizinhos eram ególatras, negociantes e pouco apaixonados pela vida.

— Penúltimos. O filho do príncipe está a caminho. — Lembrou-me.

Coloquei levemente a palma da mão sobre a boca de Valenius. Eu não podia negar que aquela figura me causava curiosidade pelo mistério de ser muito falado. Sobre quem muito se fala, pouco se sabe, pois as lendas e mitos tomam o lugar da realidade em algum momento.

— Silêncio, corvo! Deixe essas notícias ruins longe de mim. — Pedi, enquanto abaixava a mão. Um pouco de colaboração da parte de Valenius para que eu pudesse manter a sanidade era mais do que bem-vinda.

Ele inspirou o ar com força e sorriu.

— Ah! Que regozijo é ser um pobre maltrapilho e subalterno. Que bela manhã. — Provocou com um largo sorriso de quem exibia sua liberdade sem piedade alguma.

Revirei os olhos, impaciente.

— Vá na cozinha e pegue a comida mais doce que você encontrar pela frente. É uma ordem. — Mandei. Já que ele estava abusando de sua boa saúde com o vigor da língua, que usasse as pernas também.

Ana Merak - Dever e HonraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora