Ela estava chorando. Eu conseguia ouvir seus movimentos de onde eu estava no castelo. Os gemidos abafados, as fungadas, dilaceravam o meu coração. Mesmo na cozinha, pegando uma pouca quantidade de sopa, eu a ouvi chorar. E eu chorei também. Havia pessoas pelo caminho tentando me ajudar, mas eu não queria. Não poderiam me socorrer da dor de ser pai de uma criança morta. Então, no meio do caminho de volta, encontrei o senhor Borjan. Ele estava com Pricila e Arge.
O meu sogro tirou a bandeja da minha mão, colocou em um aparador que estava no corredor. Eu fiquei impassível, tive até um pouco de medo de ele me dar um tapa por eu não ter protegido a sua filha. Ele me abraçou.
Eu desmoronei.
Chorei como eu nunca tinha chorado na vida, nem quando era menino. Aquele abraço, eu precisava dele. Eu me senti tão acolhido. Então eu o abracei também. Eu abracei o pai daquela mulher a quem tanto prejudiquei. Dele veio a acolhida que eu sequer sabia ser necessária.
— Vai passar, filho. Eu prometo. — Ele falou enquanto massageava minhas costas com movimentos circulares.
Quando ele me soltou, sequei os olhos, um tanto envergonhado da minha dor.
— Onde estão meus pais? — Questionei.
— Estão cuidando do funeral. — Ele falou.
Meu sogro estava claramente abatido também, mas não ia esmorecer. Ele poderia me odiar, e teria razão, porém não era esse tipo de homem. Ou pelo menos tinha aprendido a não ser.
Catei a bandeja com a comida e segui meu caminho, acompanhado pelo meu sogro. Ana já tinha parado de chorar. Estava quieta, mas respirava alto, com dificuldade. Passei pela guarda que estava também desolada. Todos tinham expressão de choro. Polaris parecia arrasada, pois amava crianças.
Meu sogro abriu a porta, eu entrei e ele me acompanhou.
Ver Ana reacendeu a culpa que eu sentia. Ela estava tão fraca e triste, que era impossível não me sentir o último dos homens. Coloquei a bandeja sobre um aparador enquanto meu sogro se sentava ao lado dela.
— Já bebeu água, filha? — Ele falou em tom reconfortante.
— Sim. — Ela respondeu com voz fraca e controlada.
— Quer falar sobre a dor? — Ele perguntou. — Papai sabe que está doendo, filha. Não precisa mentir.
Vi pelo canto do olho ele pegando a mão de Ana. Ela parou de segurar o choro. Eu queria ser como ele. Por que eu não conseguia ser como ele?
— Dói muito. — Ela confessou com a voz rouca. — Dói tudo, pai. Dói até a minha alma.
Ele deixou Ana chorar e, quando cessou, ele beijou a testa dela. Ele a olhava nos olhos. Ele prendia o olhar dela. E para ele ela tinha a expressão de desespero que vinha do coração. Mas meu sogro olhava com calma e paciência. Eu queria que ela confiasse em mim também.
— Dói sim, filha. Eu sei que dói. A dor vai acalmar com o tempo. Agora você precisa colaborar para se recuperar. Não se preocupe muito com Arge, pois somos muitos para cuidar dele. — Então ele imprimiu uma ponta de humor na frase. — Ele tem mais cuidadores do que você.
Ana esboçou um sorriso. Para mim, meu sogro se tornou um herói. Eu já via nele um grande homem, entretanto, naquele momento ele me pareceu o melhor de todos. Eu queria ser como ele. Obviamente eu não desejava ser pai de Ana, mas eu desejava que ela se sentisse segura comigo.
— Quer um pouco de água? — Ele ofereceu.
Ana concordou. Ele pegou água para ela beber. Eu me aproximei com a tigela de sopa já morna. Era o que o médico tinha recomendado. Depois que meu sogro deu a água, ele se despediu.
— Agora o Valenius vai te servir uma sopa deliciosa que fizeram para você. Eu mesmo peguei um pouco para mim quando ficou pronta. Desculpa, tive que tomar. — Ele deu uma piscadela. — Sempre tratam melhor os doentes. Se você não aproveitar, eu vou comer tudo.
Ana esboçou outro sorriso.
Meu sogro saiu do quarto enquanto eu me sentava ao lado de Ana. Coloquei mais dois travesseiros para ela ficar na inclinação certa e comi a primeira colherada, atestando que sim, a sopa estava boa. E que eu ainda não tinha comido nada.
— Parece que o meu pai não mentiu, meu amor. — Ana falou com a sua voz fraca enquanto olhava a minha reação.
— Não mesmo. — Falei com a voz embargada e limpei a garganta.
Levei uma colherada de sopa até a boca dela e ela sorveu com fraqueza.
— Hmmm... — Ana admirou-se. — Há um tempero diferente.
Eu sorri e continuei dando sopa para ela, até que ela não aguentou mais. Comeu pouco, mas pelo menos comeu. Eu sabia que ela estava se esforçando para se recuperar.
— Você precisa comer também. — Ela disse quando deixei a tigela de lado.
— Depois eu como. Não estou com fome agora. — Respondi sentindo a garganta raspar.
— Quando vai ser o sepultamento? — Ela questionou.
— Ainda não sei. — Respondi olhando nos olhos dela.
— Eu quero ir. — Pediu com as linhas d'água se enchendo de lágrimas.
— Você está muito fraca. É melhor não se mover. — Repliquei sentindo a dor de restringi-la.
— Eu quero. — Ela disse ficando agitada.
— Tudo bem. — Concordei para ela não se agitar mais.
— Você está mentindo. — Ela bufou com sua pouca força.
Desviei os olhos para a parede e mexi os dedos sobre o colo em um movimento nervoso.
— Quando eu souber onde será, nós tomaremos a decisão. — Prometi, sendo honesto.
Ela concordou.
— Você quer que eu leia um livro para si? — Perguntei. Havia um livro na mesa de cabeceira que ela estava lendo antes.
Ana sabia ler em muitas línguas e nisso eu era inferior. Mas aquele eu podia ler.
— Sim. — Ela aceitou.
Peguei o livro que falava sobre um distante Pomar mágico e segui a leitura do capítulo. Ela fechou os olhos e sorriu, mas logo gemeu de dor.
— O que foi? — Parei e perguntei.
— A sua leitura é gostosa de ouvir. — Ela disse.
Fiquei completamente sem reação.
— Continue. — Ela pediu.
Então eu continuei até que ela caiu no sono. Um sono feio, agitado e com a respiração estranha. Mas o coração seguia firme em sua função.
Minha mãe surgiu para tomar o meu lugar enquanto eu ia me banhar e comer. Antes de qualquer coisa fui até o quarto do meu filho e surpreendi Pricila cantando uma canção de ninar enquanto fazia um brinquedo flutuar sobre ele. Ela não se incomodou com a minha presença. Olhei no berço, ele dormindo tranquilo. Passei a mão em seu rosto frágil e fiquei um pouco mais tranquilo.
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Ana Merak - Dever e Honra
FantasíaAna Merak descende de uma família que se encontrou com a magia em condições adversas. A mãe de Ana era humana, mas foi recrutada para lutar pelo equilíbrio do mundo. Em meio ao caos da vida, a prestigiada Lira Merak deu à luz suas filhas, e teve uma...
