A carruagem sacolejava me deixando enjoada. Não me lembro muito das falas, apenas de algumas imagens. A maior parte do tempo eu dormia em um cesto grande e acolchoado que meu pai colocou no chão da carruagem. O teto era forrado de tecido preto. Sempre que eu abria os olhos, via os de meu pai, verdes e cercados por olheiras escuras, me vigiando amiúde como um gavião. Às vezes ele olhava para os lados, pela janela do carro, para um além que me era desconhecido. Seu rosto estava carregado de cansaço e sofrimento.
Em dados momentos ele me pegava no colo para dar comida. Seus dedos eram tão grandes que apenas uma de minhas mãos era incapaz de segurar o indicador onde ele colocava a aliança de casamento.
Cutuquei o anel brilhante com meu dedinho rechonchudo, enquanto mascava uma papa de aveia e leite, depois passei a mão em seu rosto. A barba por fazer pinicava minha palma sensível de criança, fazendo cócegas, foi por isso que ri, pela sensação curiosa. Derrubei um pouco de papa da boca.
Meu pai limpou a sujeira.
— A tua roupa está comendo mais do que você, Ana. Ela não precisa disso, filha. – Ele falou com tom leve de reprimenda enquanto eu ainda fazia bagunça em seu rosto.
— "Diculpa" papai. – Tentei articular as palavras que pareciam certas segundo a minha percepção. Era aquilo que os adultos diziam quando erravam, por consequência, era o que eu precisava dizer também.
Por que eu pedia desculpas? Eu não sabia direito, só pareceu errado não comer. Se ele dizia que não era bom desperdiçar, era provável que a atitude estava errada. Na minha percepção o errado era ruim, e ruim não deveria ser feito porque me traria consequências negativas. Era assim que eu entendia. Se brincasse com faca, cortaria o dedo, depois iria sangrar e doer. A dor não era boa, logo, aquela ação estava errada. Se não comesse eu sentiria fome e meu estômago iria doer também.
— Está tudo bem, filha. – Meu pai deu mais uma colherada de comida na minha boca, mas rejeitei afastando o rosto. Não tinha mais vontade. – Está certa de que não quer mais? Não sei daqui a quanto tempo iremos parar para comer outra vez.
Sacudi a cabeça com vigor demonstrando que não queria. Ele anuiu. Apalpei seu nariz porque achei repentinamente divertido.
— Vamos parar quando ela quiser comer, Borjan. — A voz de meu avô entrou na carruagem como um trovão. Meu pai fez careta revirando os olhos para cima enquanto suspirava. Logo meu avô abriu a porta e enfiou a cabeça ali, investigando o que ocorria.
— Velho, você não pode acostumá-la mal. — Meu pai ralhou com vovô.
Meu avô sorriu para mim e encostou a ponta do indicador no meu nariz. Agarrei seu dedo com ambas as mãos. Eu não tinha noção das proporções, só entendia que ele era bem maior que meu pai. Homenzarrão.
— Não vou deixar a minha neta morrer faminta porque o pai dela é um humano caprichoso. — Biso Barakj resmungou enquanto me pegava no colo.
— Ela não vai morrer de fome, Barakj! Por quem me tomas?! — Papai retrucou indignado.
— Não vai mesmo, Pituquinha. Vovô não vai deixar. — Ele me puxou para fora da carruagem em seu colo alto. Parecia uma torre de tão gigantesco. Eu via os topos das cabeças de boa parte dos outros homens que nos acompanhavam. Perscrutei matas verdejantes à nossa volta e alguns homens sentados enquanto comiam uma refeição improvisada. Eles me olharam por um instante porque meu avô me exibia orgulhoso: — Minha herdeira, o futuro da família Merak.
O medalhão em meu pescoço brilhou.
Meu pai saiu da carruagem esticando o corpo em um espreguiçar prolongado e depois desapareceu entre as árvores.
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Ana Merak - Dever e Honra
FantasíaAna Merak descende de uma família que se encontrou com a magia em condições adversas. A mãe de Ana era humana, mas foi recrutada para lutar pelo equilíbrio do mundo. Em meio ao caos da vida, a prestigiada Lira Merak deu à luz suas filhas, e teve uma...
