— Existe um canto especial de onde eu vim. Mesmo para nós, que somos acostumadas com as suas ondas sendo entoadas com certa frequência, ele soa extraordinário. Cantamos quando semeamos a terra para que nasçam mais plantas medicinais. Sempre nos aplicamos em um ciclo de cultivo. — Pricila explicou enquanto estava parada e olhava para as próprias lembranças, além do que podíamos ver. Tinha uma bela flauta em suas mãos. A flauta era ornamentada com conchas, penas coloridas e escamas furta-cores enormes, penduradas em sua extensão. As escamas eram quase do tamanho do meu dedo mindinho e me causavam curiosidade. — Chamamos aquela música de Canto da Semeia.
Nós estávamos ali, no pomar do castelo, aproveitando a sombra das árvores e os aromas. E foi por insistência de Pricila que eu parei de trabalhar um pouco e fui aproveitar a estação. Naquela altura, haviam se passado dois meses que ela tinha chegado e se inteirado de suas funções. Pulchra, Pricila e Jis formaram um trio harmonioso na administração da instituição e eu não poderia estar mais grata, pois era um alívio para todos nós.
Às vezes eu nem queria me levantar da cama e, quando levantava, tratava de não pensar demais para que as forças não me faltassem. Era melhor focar no trabalho e em aumentar os ganhos para a nossa terra e o nosso povo. Ser uma boa administradora, afinal, as vidas de todas aquelas pessoas dependiam diretamente das minhas ações. Nos fins das tardes eu sempre me juntava ao meu pai na torre, em nosso ritual de solidão, espera, e deixava os sentimentos fluírem. Eu já não chorava mais. Em algum momento o choro ficou entalado na minha garganta e não quis mais sair. Eu me sentia seca. No fundo eu estava muito grata por pelo menos passar algum tempo com o meu pai, e isso era precioso para mim.
— Que maravilha! — Jis bateu as mãos e esfregou enquanto sorria. Seus olhos brilhavam. Estava empolgado para ouvir o tal Canto da Semeia.
Papai também parecia positivo. Ele pegou a minha mão, apertou enquanto sorria para mim, e depois soltou.
Estávamos todos ali, debaixo das árvores, sentados em nossas cadeiras de madeira como uma pequena plateia para aquela dama encantada, com seu vestido completamente branco, tranças aleatórias nos cabelos e olhos brilhantes de empolgação. Havia poesia no momento. Registrei cada detalhe na mente para passar para uma tela depois. Eu andava produtiva por aqueles dias.
Pensei que só faltava Solis ali, mas ela estava ocupada preparando seu casamento comum com Tenebris.
Pricila soprou uma longa nota em sua flauta, lembrando um assovio de quando se chama alguém que está muito distante. Imediatamente me senti flutuando. Ainda que não tivesse me movido, era como se meus pés não tocassem mais o chão. Fechei os meus olhos deixando a música entrar em mim e senti um arrepio percorrer meu corpo enquanto a imagem de mulheres de tangas de fibras naturais, e com seios tapados por trançados de cordas vegetais, penetraram e se expandiram na minha mente. Elas estavam felizes, com cestos pendurados em seus troncos. De dentro dos cestos, tiravam sementes que eram jogadas nos sulcos da terra enquanto elas cantavam. Não cantavam palavras, apenas sons. Sons belíssimos. Entoando, elas estavam entoando. Seus corpos, rostos e vozes eram tão singulares quanto as suas cores.
Eu tive paz enquanto as via em sua atividade. Senti os músculos do meu rosto se movendo e abrindo um largo sorriso espontâneo que me era quase um estranho naqueles meus dias tão sombrios. Eu sentia alegria genuína naquela música. E esperança. A mesma de quem sabe que a colheita será a melhor de todos os tempos. Meu coração se alvoroçou no peito.
Quando Pricila parou de tocar e eu abri os olhos, vi nos rostos de todos os presentes um ar sonhador e otimista. E a salva de palmas veio naturalmente, como uma homenagem ao grande talento da dama da música.
— Bravíssimo! — Jis elogiou, empolgado.
Faltavam-me as palavras para congratular minha mestra, então coloquei mais força nas palmas.
— Cante um pouco para nós, Ana. — Ela pediu depois que as palmas cessaram.
Então, naquele tempo, eu já era apenas "Ana". E isso foi bom para mim.
— Não acho que posso. — Respondi com pesar, sentindo a garganta arranhar. — Há muito tempo que não canto.
— Isso é bobagem. Não se pode abandonar um dom. — Ela respondeu com ares de imposição.
Foi quando todos os presentes começaram a insistir. Eu não sentia vontade, mas papai pediu tanto, e, por ele, eu podia fazer tudo, apenas para que ele não sofresse mais. Eu me levantei e fiquei ao lado de Pricila, com o meu vestido simples e listrado, de mangas curtas e bordados de flores na barra.
— Vai cantar qual música? — Ela perguntou, sentindo-se claramente satisfeita por me arrancar do meu conforto.
— A cantiga da Păpăluga. Conhece, mestra? — Questionei-a. Talvez eu tivesse a sorte de ela não conhecer.
— Claro que sim! Continuamos no tema da colheita. — Ela riu.
Pricila começou a tocar e eu cantei aquela música sobre a deusa que trazia chuva. Havia um ritual romanesco que sempre faziam com as crianças, para espantar a seca. Funcionava, pelo menos, até onde eu vira. Era uma tradição que me agradava muito.
Cantar fez eu me sentir leve. O público, que incluía Ina, Aurel, Alin, Tellūris e Estera, acompanhou com palmas. Estavam empolgados com a apresentação e começaram a cantar juntos. Havia algo especial naquele momento. A solidão me abandonou pelos minutos que a música durou e cheguei até a saltitar, dançando, balançando os braços para cima e para baixo.
Achando a festa boa, papai pediu para que afastassem as cadeiras, a fim de abrir o círculo. Ele pediu que Pricila tocasse outra cantiga tradicional e Estera se ofereceu para cantar. Meu pai me tirou para dançar com ele naquele espaço e eu aceitei. A atividade fez eu me sentir bem disposta e me prendeu no presente, evitando olhar para o futuro incerto ou para o passado doloroso. Uma música foi emendada na outra, Solis chegou por um momento e correu na cozinha para buscar comida e bebida para nós.
Houve mais danças, mais cantos e risos felizes podiam ser ouvidos à distância, pois mais servos do castelo se juntaram à nós.
Foi o primeiro dia no qual me alimentei por vontade própria e sentindo o sabor dos alimentos.
Lá, do fundo do poço, eu vi a luz. Eu não morreria sozinha, jogada no vazio, porque eu tinha pessoas que me amavam, e eu os amava também.
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Ana Merak - Dever e Honra
FantasiAna Merak descende de uma família que se encontrou com a magia em condições adversas. A mãe de Ana era humana, mas foi recrutada para lutar pelo equilíbrio do mundo. Em meio ao caos da vida, a prestigiada Lira Merak deu à luz suas filhas, e teve uma...
