Havia uma grande movimentação no térreo do castelo. A música já podia ser ouvida antes do pôr do sol. Os convidados das terras vizinhas chegavam em suas carruagens ou cavalos, e eram saudados pelos anfitriões que dispensavam a sua simpatia para aqueles bolsos abastados.
Um batalhão de serviçais estava no meu quarto. Não me dei ao trabalho de decorar seus nomes ou seus rostos ou de demonstrar o ânimo que eu não tinha. Tornei-me um fantoche em suas mãos enquanto elas avaliavam o penteado que me deixaria mais bonita segundo a moda local.
A alegria só se fez presente quando a caixa do meu novo vestido foi aberta e eu vi o tecido brilhante. A cintilância soava quase como um convite.
Após colocarem algumas camadas de roupas em mim, finalmente foi posto o vestido. Vi-me como uma princesa, majestosa no reflexo do espelho. Toquei os pequenos bordados, sentindo um formigar gostoso nas pontas dos dedos. Sorri admirada. Dei uma volta em torno do meu próprio eixo para sentir o caimento do tecido. Era como se tivesse sido planejado para mim. Fui tomada por uma onda de alegria. Momento de felicidade que ficaria marcado na memória.
A felicidade é assim, efêmera. Passa por nós em tolos momentos.
Gueorgiana pediu minhas joias para enfeitar-me os cabelos. Lancei um olhar desconfiado, que não era adequado, pois colocava a honra dela em xeque.
Com uma presilha dourada, um véu dourado foi prendido na parte de trás da minha cabeça, quase na altura da nuca. O penteado consistia em ter meu cabelo dobrado em algumas camadas de modo que no final as pontas ficaram pendentes nas laterais do rosto, como franjas.
Gueorgiana colocou a mão no medalhão da ordem para tirá-lo do meu pescoço.
— Não! — Rejeitei e pulei longe como se tivesse sofrido uma ameaça, protegendo o medalhão com ambas as mãos.
As mulheres me olharam assustadas, algumas com uma mão sobre o coração.
— Não gosto de tirar o meu medalhão, pois foi a minha mãe quem me deu. — Justifiquei-me para tentar amainar o clima.
Até poderia guardá-lo no bolso, mas eu não queria. A minha intuição mandava que eu usasse daquela maneira.
— Fica melhor sem o medalhão, senhorita. — Gueorgiana argumentou com a sua insistência estúpida e invasiva.
— Eu já disse que não quero tirar. — Persisti em meu posicionamento. Se ela tentasse ultrapassar os meus limites mais uma vez, eu não sabia do que seria capaz.
— Como desejar, senhorita. — Falou com a voz abatida, como se tivesse falhado.
Eu honestamente não me importava com o que ela pensava ou sentia. Aquele medalhão era um presente da minha mãe e fazia eu sentir que ela estava comigo. Naquele momento eu precisava daquilo, apesar de não pensar sobre isso.
As criadas surgiram com maquiagens cuja procedência eu não sabia qual era. Usei apenas o realce preto para os cílios, um pouco de pó que deixava a minha bochecha mais corada. Nos lábios uma pastinha de manteiga colorida com alguma flor cor de rosa.
Fui, finalmente, deixada a sós.
Observei-me no espelho. Fiquei apaixonada pela minha própria imagem, pois era a primeira vez que me via tão composta desde a infância, quando a minha mãe cuidava de mim. Coloquei algumas gotas de óleo perfumado no corpo e girei, sentindo-me uma rainha. Uma pessoa de grande importância para o mundo. Mas eu era somente uma menina empolgada. Arrisquei dançar alguns passos sozinha, ao som da orquestra que já trabalhava lá embaixo.
Alguém bateu na porta. Eu abri.
— Santo Altíssimo! Que linda está a minha neta. — Vovô elogiou com os olhos brilhando.
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Ana Merak - Dever e Honra
FantasyAna Merak descende de uma família que se encontrou com a magia em condições adversas. A mãe de Ana era humana, mas foi recrutada para lutar pelo equilíbrio do mundo. Em meio ao caos da vida, a prestigiada Lira Merak deu à luz suas filhas, e teve uma...
