MENOS DE UM ANO

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Eu ainda sofria com a dor de ser uma mãe de primeira viagem, um tanto perdida nas descobertas e nos cuidados. Todas as mães ao meu redor começaram a compartilhar suas experiências comigo, com o intuito de me ajudar e somar no meu processo de aprendizagem. Eu ouvia tudo o que tinham a dizer, porém não achava todo conhecimento aproveitável. Faz parte da vida. O importante era eu ter respeito por elas e elas por mim. Nem todas lidavam tão bem com a resistência em replicar um cuidado ou outro, mas, no fim, sempre havia a compreensão de que apenas eu poderia saber o que era melhor para Arge.

Lunais ficava mais perto de mim, cuidando da família para que eu descansasse e me recuperasse mais rápido. Eu não podia reclamar.

Ainda assim, em alguns momentos eu me sentia solitária. Como quando o bebê chorava de fome e eu não conseguia fazer ele pegar o seio. Eu pensava que ele morreria daquela necessidade básica que era a alimentação. Sentia-me incompetente, até descobrir que não era incomum. Arge não era bom para mamar, então eu sentia culpa com muita frequência. Ele também parecia muito pequeno, menor do que as outras crianças da mesma faixa etária. Os filhos de Solis eram mais fortes, praticamente bezerros. Cheguei a chorar de raiva e tristeza, escondida, enquanto me flagelava por eu mesma ter um corpo muito pequeno e pouco consistente.

Algumas dessas experiências dolorosas eram compartilhadas com Valenius, tanto em responsabilidades quanto como desabafos. Eu não dormia às vezes, checando se meu filho estava respirando. Meu esposo jurava que sim, mesmo não olhando, mas eu precisava tirar a prova. Eu precisava ver de perto porque eu achava que ele estava confiante demais. Às vezes eu me irritava porque aos meus olhos parecia displicência, então eu parava para me lembrar de que a função de Valenius até ali tinha sido guardar a minha vida e eu confiei nele cegamente. Não tinha motivos para ser diferente em relação a Arge.

Havia um monte de novas e bonitas experiências. Enquanto outras eram feias e desesperadoras. Quando Arge abriu os olhos, eu vi neles o inconfundível olhar da minha mãe em traços e cores. Então eu chorei, inconsolável. Era idêntico.

Valenius me contou que o nosso filho era humano pouco tempo depois do nascimento. Fiquei dividida entre achar bom ou ruim, porque ser sobrenatural era garantia de ter mais força e resistência. De poder se proteger melhor. Eu pensava demais, muito. Podia-se dizer que eu padecia do raciocínio. Cheguei a desejar que meu filho fosse lobo, para que não padecesse se eu não conseguisse suprir ele com o mínimo.

O batizado de Arge aconteceu com uma grande festa. Naquela noite eu estava animada, então tive a minha primeira grande noite de amor depois do nascimento de Arge. Suguei as energias de Valenius até o tutano, deixando-o derrubado, suado e ofegante em nossos lençóis.

E o resultado apareceu um tempo depois, no meu ventre protuberante. Me vi grávida do meu segundo filho quando o primeiro ainda nem tinha completado ano.

— Vocês são animados. — Solis disse um dia, quando nos encontramos para o chá.

Eu ficava um pouco envergonhada, mas Valenius se orgulhava. Os filhos de Solis eram dois lobos gêmeos. Tenebris nunca se cansava de dizer que a sua esposa próspera havia dado herdeiros prósperos, fortes e espertos. Ele e meu avô eram farinha do mesmo saco.

Queria que Valenius dissesse algo igualmente bonito sobre mim, mas ele apenas sorria. Ele nunca foi de se expressar muito com as palavras, então talvez eu esperasse demais. Era como nutrir a expectativa de que uma mina de ouro desse diamantes. O problema foi que, diferente da primeira, houve um momento daquela gravidez quando eu não me sentia mais tão amada. Nada que Valenius fazia parecia suficiente. Eu chorava escondida, no banho, até aliviar um pouco da dor. Então decidi por ficar bem próxima do meu marido, para espantar aquele sentimento ridículo.

Ana Merak - Dever e HonraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora