PRONTA

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Como em todos os outros dias, acordei ao nascer do sol, por hábito. Era costume sair da cama e ir direto para o ateliê, dar andamento nas minhas produções. Depois eu me arrumava para os estudos do dia. Naquele momento eu me sentia muito encantada pelo conhecimento, pois aprendia sobre territórios e políticas. Era um êxtase, assim como um assombro, contemplar a simples ideia da existência de lugares completamente diferentes. Às vezes eu passava os dedos sobre os mapas, imaginando se a minha mãe estava naqueles lugares diferentes e longínquos. Será que ela vivia como eles, os estrangeiros?

Arrastei-me até a pesada cortina de veludo e a arredei. Sonolenta, quase aos tropeços, me embolando em minha camisola comprida e larga. Abri a janela e deixei o ar fresco da manhã entrar. Inspirei profundamente o cheiro de flores e de fumaça que vinha da cozinha. O ar também tinha cheiro de floresta, muito específico e fresco.

Comecei a desfazer a trança frouxa que eu arrumava toda noite para dormir. Soltei um berro quando percebi a forma estranha no meu quarto. Quase me joguei pela janela. A porta do meu dormitório foi aberta de maneira brusca, quase arrancada, com um empurrão do meu avô.

— O que ocorre, Ana? — Indagou, verificando os todos cantos.

Apontei para um espaço escuro atrás dele, com a minha mão trêmula.

— Ah! — Vovô riu ao ver Valenius parado lá, como uma assombração. A diferença para o dia anterior era que o jovem vestia uma meia armadura. Estava portando uma adaga e uma espada nos lados dos quadris. — Bom trabalho, filho.

Valenius não se mexeu.

— O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO NO MEU QUARTO?! — Berrei histérica e arremessei um travesseiro contra o pobre Valenius.

Meu avô aparou o objeto no ar e o devolveu para a cama.

— Trabalho. Dever. — Valenius respondeu com a voz moderada e calma de sempre.

— Seu trabalho não inclui meu aposento! — Reclamei com uma mão pousada sobre o peito. Meu coração ainda estava acelerado do susto.

— Não havia exceção no contrato, senhorita. — Foram suas palavras.

Maldito contrato! Era o meu primeiro, ele não podia simplesmente intuir o que deveria ou não fazer? Os serviçais costumavam entrar nos quartos, mas não no meu.

— Ana, veja os modos. — Meu avô ralhou. — Um escândalo assim, logo pela manhã. Vão pensar que você está em apuros.

— É bom para animar o seu dia, senhor Merak. — Falei com ironia e andei até a cama, pisando duro. Peguei uma colcha para me enrolar porque comecei a me sentir desnuda.

— Boca dura. — Meu avô reclamou.

— Tal avô, tal neta. — Resmunguei irritada.

Olhei para a estátua viva que era meu guarda pessoal, senti ódio outra vez.

— Será que você pode... — repensei no meio da frase. Não era justo ser grosseira com ele. — Nós dê licença, por favor, Valenius. Bom dia. Eu fiquei assustada com a sua presença.

Ele anuiu, saiu pela porta e parou ao lado do meu quarto, em pé. Arrastei uma pesada cadeira verde com bordado de flores de cor laranja e coloquei ao lado dele.

— Sente-se, por favor. É uma ordem. — Falei com meu tom mais firme. Não sabia se tinha funcionado até que ele se sentou.

Entrei no quarto e fechei a porta.

Ana Merak - Dever e HonraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora