UM DIA MELHOR

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— Bom dia, Valenius. Acordou hoje de bom humor? Como estás? — Questionei ao sair do meu quarto.

— Muito bem, senhorita Merak. Obrigado por perguntar. — Respondeu com a sua maneira formal.

Aquilo indicava que havia alguém por perto. Ao menos era dessa forma que eu entendia.

Infelizmente colidi com a nossa insuportável convidada assim que saí do corredor dos dormitórios principais. Naquela manhã, ela tinha espalhado pela própria pele um óleo com enjoativo cheiro de rosas e seus cabelos foram presos com menor precisão do que de costume.

— Bom dia, senhorita Merak. — Cumprimentou sorridente. Até a voz dela me irritava, mas eu estava determinada a não deixar aquela pessoa estragar o meu dia.

— Bom dia, senhorita. — Repliquei com máxima educação. — Desculpe-me pelo atropelo, mas preciso me apressar para resolver algo. É que me urge. Vejo-te no café da manhã.

Puxei o braço de Valenius para que ele apressasse o passo. Não havia agendado compromisso importante, porém já fazia algum tempo que eu queria encontrar meus amigos e perguntar os motivos de estarem tão distantes. Não achei Solis na cozinha, nem nas hortas. Pensei que ela poderia estar nos lugares onde normalmente íamos e corri para o canto do jardim, aquele mesmo ponto onde conheci Valenius. Ela não estava lá, entretanto, encontrei Ionel de passagem. Ele pareceu não me ver, apesar de a distância beneficiar o contato.

— Ionel! — Gritei e acenei com os braços para ele se atentar à minha presença.

Ele seguiu como se não pudesse me ouvir.

— Ionel! Ionel! — Gritei e corri para alcançá-lo. Ele parou e lançou sobre mim um olhar vago. No tempo que eu mal o via, Ionel crescia absurdamente. Estava com mais altura.

— Senhorita Merak. — Ionel me cumprimentou de maneira formal.

— Por que você está falando assim? — Estranhei. Era tão frio e distante.

— Não entendo, senhorita. Posso ser de alguma utilidade para si? — Meu amigo perguntou como se fosse um serviçal qualquer tratando com seu senhor.

Recebi aquela resposta tal como uma punhalada no meu coração. Talvez eu sentisse menos dor se ele me enfiasse uma lâmina no peito.

— Ionel? O que está acontecendo? — Falei já com o choro entalado na garganta.

— Se não posso servi-la, eu me recolho para os meus afazeres diários, senhorita Merak. — Ele virou as costas e partiu.

Não consegui segurar o choro, pois eu estava mais magoada do que revoltada.

— Por que ele fez isso comigo? — Lancei a pergunta no ar enquanto me virava para Valenius.

Antes de ver o rosto do meu guarda, eu a vi. Gueorgiana estava ao pé da escada da cozinha, nos observando com seu sorriso congelado. Ela acenou com a mão.

Escondi o rosto, enxuguei as lágrimas e me muni de uma altivez que eu não tinha mais. Ionel não poderia fugir de mim para todo o sempre. Cedo ou tarde eu o encontraria e tiraria satisfação daquela passagem, mesmo que eu precisasse subornar Valenius para dar uma surra nele.

Em todas as atividades do dia eu estive aérea, me questionando sobre o inexplicável comportamento de Ionel. Em dado momento veio a epifania, e eu entendi que já tinha aprendido muito, pois executava as atividades sem pensar nelas. No intervalo do almoço indaguei a Valenius para saber se ele portava algum conhecimento da situação, alguma percepção que me fugiu; mas não. Segundo ele, nada sabia.

Ana Merak - Dever e HonraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora