IVANTIE CORNELIUS

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Vê-la é como me olhar no espelho. Ionela, minha irmã gêmea, é idêntica a mim. Até no físico fraco e nos cabelos dourados e compridos, somos iguais. Se colocarmos a mesma roupa, dificilmente seremos identificados, apesar de eu ser rapaz. Uma dor sem fim não parecer másculo e valente o suficiente, apesar de eu não me importar com isso. As mulheres sempre me desejaram, sou eu que nunca as quero, porque não são interessantes o suficiente. Prefiro meus jardins.

Ionela lança sobre mim o jugo de seu olhar. Ela tem a personalidade diferente da minha, mais ríspida e dominante.

— Você não devia ter trazido este vaso estúpido, Ivantie. O que a sua pretendente vai pensar? — Aponta com o queixo para o pequeno vaso onde cultivo com cuidado uma muda de roseira. Jardinagem sempre será a minha grande paixão.

— Não pensará nada, Ionela. As jovens nunca se importam com a minha paixão pelas flores. Pelo contrário, elas gostam. — Suspiro colocando o vaso no chão da carruagem. — De todo modo a nossa opinião não importa, pois é o arranjo das famílias que determina o futuro.

— Não é interessante que a noiva desgoste de você. Principalmente porque você já não tem inclinação para lidar com as mulheres. — Acusa com olhar ferino.

Os cabelos de Ionela estão presos em um coque enfeitado com uma bonita tiara de diamantes.

— Não tenho culpa da minha natureza. — Sussurro com cansaço de viver.

— Ninguém tem, mas todo o povo de nossas terras depende de você. Façamos boas alianças. Não sei o que vamos encontrar no Castelo Merak. De início pensei que a tal Ana fosse uma selvagem, pois viveu trancada boa parte da vida. Agora, correm boatos de que é fina e bonita. — Ionela fofoca. Está sempre atenta nos boatos, para garantir que sabe quem são as melhores pretendentes.

É justo admitir que Ionela me comanda e que fez nossos pais visitarem o Castelo Merak apenas para saber se Ana é uma boa pretendente.

Chegamos ao maior castelo da região e somos recepcionados por uma senhora chamada Pulchra e sua filha. Está um pouco frio. Nossa família é guiada pelo castelo até uma sala preparada para a nossa visita. Percebo que no salão há uma pintura em andamento. Fico curioso.

Pulchra abre portas duplas e nos dá acesso a uma sala com móveis antigos muito bem conservados. Nada está velho e o único sinal do tempo é a modelagem maciça. Barakj Merak e Borjan Alioth nos recebem com sorrisos cordiais. Dois homens belíssimos. Adônis e Apolo. Borjan tem rosto perfeito, com olhos da cor de folhas e cabelos pretos. Se fosse mulher eu sairia daqui implorando para me casar com ele. Só a ideia de compartilhar a mesma cama já me anima um pouco.

Ele me cumprimenta com toda a educação e formalidade existentes e eu me encanto por sua voz. Barakj é como um semideus, me olhando de cima, desnudando a minha alma. Ana certamente é bonita.

A reconheço assim que ela adentra a sala com seu vestido azul cheio de babados. Ela tem a beleza dos dois parentes que estão aqui. Muito encantadora. Se eu fosse diferente, estaria seduzido por ela.

Já o guarda que a segue, me olha com certo julgamento. O canto de seus lábios parece ensaiar um sorriso. Há um brilho de alegria em seus olhos. É um jovem belo, de cabelos castanhos ondulados e com duas marcas atraentes na bochecha. Cicatrizes.

— Que bela moça você é! — Minha mãe exclama ao cumprimentar Ana. Ela está genuinamente impressionada.

— Grata pelo elogio, senhora Cornelius. Certamente sou menos encantadora que a vossa pessoa. — Ana devolve o elogio e a minha mãe cora.

Ela me fita com os olhos brilhantes de esperança. A esperança de que talvez eu possa me apaixonar por Ana e livremente a peça em noivado.

— É um prazer conhecer você, senhorita Merak. — Ionela cumprimenta e direciona o olhar para mim.

Pego a mão de Ana, arqueio o corpo para frente em um cumprimento muito galante e sorrio.

— É uma honra, senhorita Merak. Sua boa fama a precede. — Cumprimento. Ela me dá um sorriso amistoso.

— Tenho uma boa fama, senhor Cornelius? Isso me surpreende. — Ela se diverte.

A informação certamente a surpreendeu.

— Muito boa fama, senhorita Merak. — Afirmo. Não é mentira. — Correm notícias sobre sua beleza, e não estão erradas.

Ela fica com o rosto corado.

— É muita gentileza. — Agradece.

Sentamos em uma mesa onde está posta a comida para esse encontro. Ana está ao meu lado e com o tempo seu cheiro me chama mais atenção do que seu pai.

— Que aroma distinto, senhorita. — Sussurro. — Não consigo identificar a composição, mas me parece floral.

— É floral sim! É um óleo que eu mesma desenvolvi com algumas flores do jardim. — Explica. — Já faz algum tempo, mas é duradoura a composição, pois algumas gotas são capazes de perfumar um batalhão.

— Seria interessante e surpreendente um batalhão de soldados cheirosos. — Imagino a cena.

Ela ri.

— Há alguma dignidade em se perfumar, caso contrário os perfumes e óleos aromáticos não seriam tão caros. Soldados perfumados seriam soldados caros e ricos. — Reflete.

— É um pensamento interessante. Quem tem dinheiro para manter um batalhão assim? — Coço o queixo. Nem mesmo um rei despende tempo e dinheiro para isso.

— A questão não é "quem", mas "onde". O mundo é grande o suficiente para que essa ousadia seja real em algum canto. Pessoas tendem a ser criativas. — Desenvolve o pensamento.

— Penso que nenhum lugar sem civilização é capaz de ter esse tipo de ideia e sabemos que a Europa é o berço da civilização e da sabedoria. — Argumento.

Ela me olha torto.

— Acho estranho pensar que apenas nós somos civilizados e podemos ter essas ideias, quando tantos aromas vêm de terras longínquas como a Índia, senhor Cornelius. Há uma imensidão de conhecidos valiosos além da Europa. Particularmente acho arrogância diminuir civilização ao que nós conhecemos. — Rebate. Ana não é do tipo submisso de mulher.

— Nunca vi um não-europeu que fosse minimamente inteligente. — Debocho porque é verdade. — Já vi alguns imigrantes e eles mal sabiam conversar.

Ana olha para o próprio prato em um silêncio suspeito.

— Isso é porque eles falam outra língua, senhor Cornelius. Tente você mesmo falar outras línguas que não sejam as de costume e falhe de forma miserável. — Repreende.

Sinto-me um imbecil e prefiro mastigar a minha comida. Não acredito que todos se encantam por essa menina intragável.

Observo meu pai conversando com Barakj e noto que ele está bastante empolgado. Miro Ionela e nossos olhares se cruzam. Certamente meu pai fará alguma oferta para propor a Ana, o que é ridículo, pois tradicionalmente é a família da mulher que propõe. Não quero estar com ela, pois sei que cedo ou tarde ela descobrirá que prefiro os homens e não terei controle sobre si.

— Desculpe-me se fui muito incisiva. — Ana diz. — Às vezes não tenho tato.

Ela lança para mim o sorriso mais gentil e inocente que já vi. Não é ela o meu problema.

— Não se preocupe, senhorita Merak. Uma boa amizade pode nascer de um diálogo honesto. Se concordamos em tudo, não haverá mais conversa. — Acalmo os ânimos.

No fundo estou surpreso porque Ana não está tentando me impressionar e nem parece louca para me arrastar até um altar. É a primeira vez que a minha simples existência não traz charme suficiente para encantar uma moça. Isso fere meu ego.

Estou determinado a fazer o que for preciso para ela me considerar melhor do que todos os pretendentes, mesmo que eu não a deseje. Isso não se resume ao momento presente.

Ana Merak - Dever e HonraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora