OLHOS NOS OLHOS

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Depois da reunião exaustiva que tive com o meu pai eu só queria dormir outra vez, mas não podia. Parecia até um tanto errado me recolher ainda naquele horário. Resolvi tentar encontrar Solis depois de suas lições, se ela voltasse, mas ainda havia algum tempo livre até lá. Eu não tinha nenhum novo projeto e não queria pensar demais, então só entrei na sala das flores e deitei em um dos estofados. A sala das flores quase não era usada, mas existia e recebia manutenção constante. Era um local onírico, sempre cheio de flores frescas.

Valenius se sentou também e ficou em silêncio. Era um silêncio completo, até nos gestos. Ele nem mesmo me olhava, então notei que havia algo errado.

— Você está bem? — Perguntei. Ele estava distante.

— Perfeitamente bem, obrigado. — Respondeu sem emoção.

Sentei-me e perscrutei seu rosto imóvel.

— O que está acontecendo? — Indaguei, já um tanto preocupada.

Ele virou as palmas para cima e deu de ombros.

— Você está frio. — Eu inferi como uma reclamação.

— Essa conversa não vai chegar a lugar nenhum. — Falou em tom desdenhoso.

— Converse comigo... — Pedi, quase implorei.

Ele não quis. Não disse nada e não se expressou também, mas eu não era tonta, eu sabia exatamente qual era o problema. Porém eu também não queria dar o braço a torcer e não desejava conversar sobre o que precisava conversar. Eu não queria sair da comodidade do erro. Então resolvi fingir que estava tudo às mil maravilhas daquela maneira como seguia. Mesmo que eu quisesse falar sobre a chegada de minha mãe e outros pontos.

Algum tempo depois fui me encontrar com Solis e finalmente pude conversar com alguém.

— Como se sente depois do seu primeiro grande baile? — Perguntei enquanto andava de braços dados com ela.

— Cansada. — Ela riu. — Ninguém me contou antes sobre o quão exaustivo é lidar com tudo, entretanto, valeu a experiência. Também me senti um tanto oprimida porque as outras damas eram nobres, só não há o que fazer sobre isso.

— É... A má notícia é que de agora em diante teremos tantas situações assim que já me estresso apenas de pensar. — Desabafei e soltei um suspiro.

— Nem me diga. Era melhor ter ficado na cozinha ou como camareira. — Falou.

Olhei nos olhos dela.

— O quê?! Nem pense nisso. Vai mesmo me abandonar na pior parte? — Questionei-a sentindo a breve ameaça de solidão.

Ela sorriu e olhou para as pontas dos sapatos. Então estacou o passo, ficando de frente para mim. Segurou a minha mão e falou o algo mais inesperado de todos:

— Eu sei que você está muito triste porque o seu avô partiu. Todos estamos. Não precisa fingir que está tudo bem. — Foi brutalmente honesta.

Fiquei sem reação. Esperei alguma palavra, mas houve apenas o silêncio prolongado enquanto ela me olhava. Estava se tornando desconfortável ouvir apenas as nossas respirações. Ela me abraçou. Dentro de seu abraço quente e apertado, eu desmoronei. Desabei, pesada, como uma pilha de pedras. O choro começou leve e logo se tornou muito ruidoso. Solis ficou em silêncio esperando o meu momento de falar, mas nunca chegava. Era como se todas as feridas no meu coração estivessem costuradas e os pontos se arrebentaram naquele momento, um por um, dolorosamente, explodindo dentro do peito. Aos poucos a sensação abafada me tomava e parecia mais que eu não conseguia respirar. De olhos fechados, inexplicavelmente, perdi o ar. Estrangulada pela dor. Durou pouco, pois Solis começou a massagear minhas costas com movimentos circulares e a respiração voltou. Puxei o ar, me afogando nele, e comecei a tossir.

— Calma, calma... — Solis sussurrou.

Eu me acalmei, porém a dor ainda latejava.

— Por quê eu sou tão desgraçada? Tudo o que há de ruim ocorre comigo, Solis. — Lamentei-me ao mensurar um pouco da minha miséria.

— Você não é tão especial assim para tudo de ruim acontecer apenas com você. — Ela brincou, mas tinha um fundo de verdade.

Ri, amarga.

— Eu não sei como podemos viver sem o meu avô. Ele era tão importante na minha vida quanto o ar que eu respiro. Eu me sentia segura, protegida. — Desabafei, já começando a chorar outra vez. — Ele me ouvia, me entendia e eu gostava de ter ele por perto, sempre calado como uma planta nos cantos. Quem vai implicar com o meu pai?

— Também sentirei saudades dele. — Solis somou-se a mim, mostrando que me entendia. — Só não fale dele como se tivesse morrido. É uma ausência temporária.

— Eu odeio essa ausência! — Reclamei, colocando para fora a minha indignação. — Dói muito.

— Todos buscaríamos ele, se pudéssemos.

— Sem mãe e sem avô. Devo agarrar-me ao máximo ao meu pai, antes que alguém o leve também. — Chorei mais, já soluçando.

— A vida é mesmo efêmera, não se desespere tanto. Aproveite a presença porque ele é um bom pai. É o que faço com o meu. — Aconselhou-me com palavras um pouco embargadas.

Solis quase não falava do pai porque ele trabalhava nas plantações, mas eram unidos.

— Obrigada, Solis. — Saí do abraço dela.

— Sempre que quiser conversar, fale comigo porque posso te ouvir. — Apertou as minhas mãos.

— Eu só fiz chorar. — Reclamei de mim mesma.

— O choro é uma comunicação também. Vê os bebês? Eles choram para pedir algo. — Afirmou com a sua sabedoria adquirida da vivência. Eu tinha pouco contato com bebês.

Ela estava certa.

— Obrigada. — Falei de coração.

— Sua mãe e seu avô é que chorarão sobre a sua cova, não o contrário. Dê tempo ao tempo e eles estarão aqui. — Prometeu-me.

— O tempo é meu amigo e inimigo. Não o suporto, mas preciso e dependo dele. — Reclamei e com razão.

— O tempo é dúbio como todas essas coisas acima do bem e do mal: a vida, a morte, o desenvolvimento... Fixe na parte que lhe convém e mantenha bem acesa a chama da esperança. Você é boa nisso. Lembre-se de que agora, você, a herdeira, também é responsável por todos nessas terras. Seu pai é um homem justo e bom administrador, mas os olhos dele sempre estão em Werzov também. Gaste seu tempo chorando, porém faça tudo funcionar como deve e dê orgulho ao seu avô. Não é sobre suprimir a sua dor, e sim sobre ter propósito. Ter propósito nos deixa mais firmes. Não se preocupe porque todos no castelo são leais a você. As pessoas comentam pelos cantos sobre a tristeza que veem no seu olhar. Vamos todos proteger você. — Discursou.

— Não tenho palavras para agradecer. — Abracei-a outra vez.

Continuamos a nossa caminhada, falando de assuntos triviais. No fundo da mente eu pensava que havia muita graça na minha vida também. Um dia eu quase pulei da janela para morrer; um dia me senti cheia de inveja por não ser tão importante, especial, merecedora da vida e grandiosa quanto a minha mãe. Então, o tempo, ele se voltou contra mim, jogando nas minhas costas o meu próprio fardo pesado demais para eu arrastar. Porém eu já era outra pessoa, mais forte e localizada na vida. Eu não era mais alguém que pularia da janela, eu era uma mulher em construção que sofreria até o fim. Eu tinha meus deveres e zelaria pela minha honra. Pela nossa honra. Muito mudou em mim. De repente percebi o quanto cresci. O quanto nós crescemos. Nossas relações estavam consolidadas. Debaixo do céu azul puríssimo veio a revelação do novo capítulo que se desdobraria. Senti orgulho.

Ana Merak - Dever e HonraOnde histórias criam vida. Descubra agora