Mercados sempre são lugares curiosos; cheios de pessoas singulares querendo ganhar algo depois de muita labuta anterior não assistida pelos compradores. Senti um pouco de vergonha ao andar pelas ruas, pois parecia que mais do que nunca os olhares estavam cravados em nós. A nova formação da guarda era extravagante em demasia, Veteri e Valenius se posicionaram ao lado de cada um de nós, e alguns de nossos homens estavam atrás.
Aquilo iria coibir ataques até mesmo de ladrões banais que afanavam pouca coisa dos bolsos, mas tirava boa parte da nossa liberdade. Naquela altura me ocorreu o pensamento de que a guarda de meu avô se movia de forma magnífica, fluindo como as águas ou o vento, mudando de formação sem a necessidade de ordens ou de troca no ritmo dos passos. Uma raridade. Até mesmo para um rei era difícil treinar pessoas tão bem daquela maneira.
O burburinho do mercado, misturado com barulhos de cascos e de mercadorias sendo carregadas ou descarregadas, era reconfortante. Para mim, os comerciantes eram as figuras curiosas e, para eles, nós éramos as criaturas singulares cuja única característica importante era a vaidade e a compulsão pelo consumo em excesso.
Acompanhei meu avô comprar comidas secas para o nosso retorno. Carne, bolachas e pães foram encomendados para serem entregues pela manhã, no dia de partida. Havia alguns itens curiosos pendurados na porta de uma loja com acabamento em vidro colorido. Fantoches, brinquedos bonitos que imitavam o voo dos pássaros, de articulações bem feitas. Vendo que eu encarava, meu avô comprou. E comprou quase todos. Eu poderia jurar que o comerciante ia desfalecer de tanta alegria que sentia. Sob meus protestos, comprou também quase todas as bonecas e mandou embalar para entregar na pousada.
Havia uma carroça boa, com uma parelha de cavalos viçosos, de um dono de terras falido. O meu avô comprou. Foi realmente um bom negócio, pois os animais eram saudáveis.
Achamos cortes de tecido barato, porém de muito boa qualidade, coloridos. Meu avô comprou, junto a linhas, agulhas e outros aviamentos. Eu não fazia a menor ideia do que ele faria com aquilo, pois nós não usávamos, pelo menos não ainda. O velho gastador Barakj Merak comprou também alguns tecidos vindos do oriente que eram de excelente qualidade. Bordados com fios de ouro ou de prata, com motivos de flores, que enchiam os olhos. Pelo visto eu teria vestidos novos. Como se eu já não os tivesse em demasia. Ele também adquiriu tecidos finos para roupas íntimas, rendas, botões mimosos e linhas para bordar. Compramos muitas dessas miudezas.
Vi um par de botas de cano alto, pretas, com detalhes em prata, caríssimas. Usei meu próprio dinheiro e comprei essas para o meu pai. Caberia como uma luva em seus pés. Eram forradas com tufos pelos, muito macias ao toque. Os pés dele ficariam aquecidos durante o inverno. Eu estava certa de que ele se sentiria caminhando em nuvens. No mesmo sapateiro, comprei uma bota de caminhada, pois eu não tinha. Eu era nova nessa empreitada da liberdade. Escolhi também um par de botas de cavalgada e um par de sapatilhas brancas, lindas, com corpo de madeira, forrada com pelo do lado de dentro e veludo do lado de fora. Bordadas com pequenos cristais formando flores.
Alguns homens da guarda também estavam comprando, mas não coloquei atenção em suas atividades.
Achamos um livreiro, que transcrevia manualmente e fazia toda a estrutura dos livros. Era um velho matusalém que andava curvado. Em sua loja estava também o ilustrador. Meus olhos brilharam quando vi os exemplares de contos, ilustrados com iluminuras. Compramos um para mim e um para Jis. Ali também encontramos alguns mapas atualizados.
— A minha neta é uma artista de muito talento. — Meu avô se gabou para o ilustrador.
— É mesmo, senhor? — O homem olhou para mim escondida atrás de meu avô, envergonhada.
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Ana Merak - Dever e Honra
FantasíaAna Merak descende de uma família que se encontrou com a magia em condições adversas. A mãe de Ana era humana, mas foi recrutada para lutar pelo equilíbrio do mundo. Em meio ao caos da vida, a prestigiada Lira Merak deu à luz suas filhas, e teve uma...
