— Sinto-me tão inchada. — Ana sentou-se na poltrona e ergueu as pernas frente à lareira.
Era um inverno rigoroso, como poucos antes presenciados por nós, habitantes daquela região. O ventre dela estava alto e eu conseguia ouvir o coração do bebê batendo lá dentro. Na verdade, eu ouvia até algumas movimentações. Ana não parava quieta e a nossa criança ficava agitada. Eu tinha certeza de que não era um lobo, pois não havia sinal na Árvore, mesmo eu indo ver quase toda semana. Quando eu chegava lá, não havia reação.
Ana estava gerando um bebê humano. Não contei para ela, pois não queria estragar a surpresa. Eu tinha certeza de que ela ficaria muito feliz e aliviada. Metade de seus temores não existiriam mais pelo simples fato de ter um filho como ela.
Servi um pouco de água em um copo e entreguei para ela. Quando conversava eu conseguia ouvir a secura de sua boca.
— Obrigada, meu amor. Você sempre sabe quando estou com sede. — Ela pegou o copo e eu me sentei na poltrona ao lado.
Às vezes eu mal acreditava naquela realidade, onde eu era marido da senhora Merak, genro da grande Lira Merak e pai do próximo herdeiro Merak. Meu sogro às vezes me pegava contemplando Ana e dizia: "eu sei o que você sente". Então dava um tapa leve no meu ombro um sorriso cúmplice.
Eu sentia imenso orgulho por ter uma família. E uma apreensão persistente com o futuro e tudo que eu não podia controlar.
— Você ainda me acha bonita? Estou diferente. — Ana reclamou em um daqueles devaneios vindos do nada. De uma parte obscura da da sua mente, onde eu supostamente a deixava de amar pelos motivos mais estapafúrdios.
Volta e meia ela se achava feia, principalmente agora que seus traços estavam distorcidos pelo inchaço. Era a desproporção que a incomodava. A estranheza do que ela via no espelho.
— A mais bela do mundo. — Coloquei os pés dela sobre meu colo para massagear.
Os homens do clã ensinaram a massagem para mim, assim como outras técnicas que traziam mais conforto para as lobas. Ana não era uma loba, mas era uma fêmea e sempre relaxava.
— Precisamos decidir um nome. Como vamos apresentar a criança quando nascer? — Relembrei.
Havia um cheiro diferente no ar. Era óbvio que ela não sentia, mas eu pedira para Pricila estar a postos, visto que ela tinha se oferecido para fazer o parto.
— Tenho dúvidas, mas quero seguir um pouco a tradição da sua família, mesmo que não seja um lobo. — Ela falou o mesmo que sempre dizia.
— Você não é obrigada. — Era a oportunidade dela de não ter um nome pré escolhido.
Ana se revirou, desconfortável.
— Eu quero. — Afirmou, convicta.
Eu sabia que era humano, então a deixaria escolher sozinha.
— Então, quais nomes seriam? — Questionei, ouvindo o bebê agitado. Uma costela dela estralou.
— Floris ou Argentum. — Ela revelou finalmente.
Franzi o cenho.
— Argentum? Prata? — Perguntei incrédulo. — Por quê?
— Não sei. Tenho sonhado com flores de prata. — Ela deu de ombros. Seus longos cabelos castanhos, que estavam soltos, começaram a grudar no suor de sua testa.
— Não é estranho? — Questionei um pouco reticente, pois não queria soar rude ou avesso à ideia.
Ela fez uma careta sarcástica.
— Você se chama Valenius, amor. Valenius. Argentum parece estranho demais? — Ela parecia ofendida. — Não sou boa o suficiente para escolher o nome da criança de um Valenius?
Soltei uma sonora gargalhada. Sua indignação desproporcional era divertida.
— Não precisa acabar com a minha raça, meu amor. Tenha misericórdia — Pedi, ainda com um sorriso nos lábios.
Ela fechou a cara. Em seguida soltou um gemido dolorido.
— Não aguento mais. — Se retorceu na poltrona. Um líquido escorreu.
— Vai nascer! — Berrei.
Carreguei-a até a cama e corri para a porta, para chamar por Pricila, mas ela já estava lá com uma pilha de lençóis velhos nas mãos.
— Vai nascer. — Ela disse e seus olhos brilharam de felicidade. Pareceu-me que Pricila amava trazer as vidas novas ao mundo. — Corra e encha a banheira.
Corri para a sala de banho e abri a torneira. Através dos protótipos de Ana e Barakj, e de outros de alguns engenheiros famosos, tínhamos conseguido fazer aquele sistema de irrigação que mandava água por todo o castelo. Os canos metálicos ficavam perto dos fogões e a água subia quente.
Ana começou a gritar, entrando efetivamente em trabalho de parto.
Quando a banheira estava cheia, aceitei a próxima ordem. Carreguei minha a esposa, que estava de camisola, e a coloquei na água.
— Agora nos deixe. — Pricila pediu.
Obedeci a contragosto porque eu não era como os outros homens. Eu podia ver meu bebê vindo ao mundo. Para não criar um ambiente hostil, abaixei a cabeça e saí. Fui chamar o meu sogro. O corredor estava vazio como sempre desde que eu me casei. Ana não ficava mais sozinha, não precisava da guarda na porta.
Bati na porta do meu sogro e ele me atendeu, sonolento.
— Ana está dando à luz. — Avisei, cheio de alegria e apreensão.
Ele arregalou os olhos, sorriu e me abraçou emocionado, dando tapas nas minhas costas.
As próximas horas foram de agonia, mas não demorou muito até que ouvimos o primeiro choro forte do meu filho. Na verdade, eu ouvi a primeira puxada de ar que ele deu no mundo e meus olhos se encheram de lágrimas. A minha realidade mudou naquele instante. Era verdade, eu e a minha esposa tínhamos feito uma vida.
Meu sogro me abraçou, orgulhoso. Estava radiante de felicidade. Seu rosto, com vincos na beira dos olhos e da boca, tinha um sorriso que quase não o abandonava.
A porta se abriu:
— É Argentum. — Pricila anunciou.
Doravante, Arge. O nosso primogênito. Primeiro herdeiro Alioth-Luppus-Merak.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Ana Merak - Dever e Honra
FantasíaAna Merak descende de uma família que se encontrou com a magia em condições adversas. A mãe de Ana era humana, mas foi recrutada para lutar pelo equilíbrio do mundo. Em meio ao caos da vida, a prestigiada Lira Merak deu à luz suas filhas, e teve uma...
