Não posso negar que cheguei a pensar que o meu noivado com Valenius seria a situação mais difícil de todas as que eu enfrentaria na vida, mas nem se comparava a quando contei para o meu pai sobre os planos de abrir uma grande estrada dentro das nossas terras. Ele me lançou um olhar de estranheza tão forte, que pensei que seria deserdada naquele exato instante. Cheguei a estremecer, de medo.
— É um plano megalomaníaco, minha filha! Você não pode estar em posse de todas as suas faculdades mentais. — Ele afirmou antes mesmo de ouvir o dito plano. A reação era esperada por mim, mas não deixava de ser difícil lidar com ela.
A partir dali tivemos muitas e desgastantes horas de conversa a portas fechadas. Trancados, corroendo o juízo um do outro, em uma maratona de resistência. Eu tinha estudado cada mínimo aspecto de relevo, orçamento, materiais, viabilidade e qualquer outro fator que se pudesse considerar em uma situação daquelas.
O que mais me preocupava não era a aprovação do meu pai. Era o fato de que eu precisava que ela acontecesse rápido, antes que a notícia do noivado fosse conhecida por todos. Porque eu usaria a minha posição enquanto objeto de desejo para fazer com que concordassem com meu plano e firmassem em letras de contrato, acordando sobre aquele projeto. Eu poderia fazer sem a aprovação do meu pai, mas era uma briga que eu não queria sustentar.
— Pai, os benefícios a longo prazo são incontáveis. São ótimos para nós também! Quantas vezes perdemos mercadorias por o caminho até aqui ser difícil e tortuoso? Podemos atrair para essa rota os maiores avanços e os viajantes mais abastados. Colocamos uma boa pousada e uma taverna controlada por nós, para evitar exploração indevida. — Argumentei com a sensação de que tinha um calo na língua de tanto argumentar. — Ainda podemos vender artigos feitos na instituição, para levantar fundos.
— Minha filha, os custos dessa construção serão altíssimos. É depenar boa parte de sua fortuna confiando que isso dará retorno. E haverão outros transtornos porque precisamos de muito mais mão de obra do que temos aqui. — Ele rebateu. — Essas pessoas precisam de abrigo e alimento, e que sejam minimamente decentes. E tem a segurança de nossas terras em jogo também.
— Podemos usar diversos dispositivos para aumentar a segurança. Um muro de pedras, cercas, um fosso... — Repliquei. — Já pensei em desviar água daqui — apontei em um mapa desenhado por mim — e trazer até aqui para fazer o fosso. Ou outra coisa. Se cavarmos fundo, não fica fácil de atravessar.
— Pessoas nadam, usam bote... Pessoas são criativas quando querem. — Ele ergueu uma sobrancelha.
— É só fazer a borda inclinada, colocar pedras pontudas atrás dela, uma cerca de estacas atrás das pedras e ervas venenosas atrás das estacas. E cavar um grande buraco depois de tudo isso. Estou para ver esse ser humano que venceria todos esses obstáculos apenas para nos infernizar. — Firmei meu ponto.
Ele guardou silêncio e entramos em mais uma longa discussão sobre os custos. Eu entendia, porque qualquer deslize faria perdermos muito ouro. Mas eu acreditava naquele projeto como acreditei na instituição. Eu sabia que poderíamos terminar sem maiores problemas. Eu intuía. Contudo, o meu pai não era um homem da intuição, ele era da razão.
Eu estava exausta quando saímos daquela sala. Não queria falar nada mais. Nem uma única palavra. Papai estava sério e provavelmente pouco disposto a conversar também. Fomos cada um para um canto, lidar com o nosso cansaço, ficar no nosso espaço. Passei pela cozinha, peguei algumas comidas aleatórias, coloquei dentro de uma panela e saí do castelo, sendo seguida por Valenius, Aurel e Tellūris.
— Aurel, Tellūris, quero que nos deixem a sós. Fiquem perto o suficiente para ouvir, mas não perto o bastante para ver. — Pedi em voz baixa e sem olhar.
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Ana Merak - Dever e Honra
FantasyAna Merak descende de uma família que se encontrou com a magia em condições adversas. A mãe de Ana era humana, mas foi recrutada para lutar pelo equilíbrio do mundo. Em meio ao caos da vida, a prestigiada Lira Merak deu à luz suas filhas, e teve uma...
