CELEBRAR

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Com a chegada da minha mãe e do vovô Barakj, eu e Valenius começamos a planejar o nosso segundo casamento. Não que já não tivéssemos pensado nele antes, muito pelo contrário, falávamos sempre sobre aquela ocasião e como deveria ser. Porém, a vida sempre guarda um abismo de diferença para como tudo funciona entre a teoria e a prática. Em primeiro lugar, fui tomada pela ansiedade por estar tão feliz que não cabia mais em mim. Em segundo, senti muita falta do meu pai. Contudo, restava-me somente o caminho da superação e fui firme em percorrê-lo.


A minha mãe ficou surpresa quando conheceu Valenius como meu esposo. Não muito surpresa, na verdade, porque ela imaginava que eu iria contrariar todas as expectativas da sociedade. Aos poucos ela se inseriu em nossa vida quotidiana.


Vivi todos os meus sonhos de ter a minha mãe comigo, mesmo os mais empoeirados e guardados no fundo do coração. Porque enquanto há vida, há tempo. A dinâmica dela com o meu avô não era parecida com o relacionamento que ele tinha com o meu pai, mas era igualmente divertida. Na verdade, meu pai era mais brando. A minha mãe se mostrava agitada, preenchendo os espaços com a sua presença avassaladora, cativando a nossa atenção. Ela e vovô Barakj valiam por cem pessoas. Tudo se tornou mais fácil com a presença deles, porque resolviam problemas com muita agilidade. Também porque com eles eu não me sentia mais tão solitária. Eu não ficava longos períodos sem a minha mãe por perto, uma vez que até para viajar ela era rápida. Percorria longas distâncias voando.


Às vezes, mamãe me pegava no meu quarto à noite e me levava para passeios fantásticos, em lugares encantados que ela sabia onde ficavam, enquanto eu jamais chegaria lá. Houveram oportunidades nas quais meu avô nos acompanhou. Valenius tinha conhecimento desses passeios e apoiava, me tranquilizando sobre o cuidado com as crianças. Foi assim que conheci O Pomar, andei de unicórnio, vi uma capivara chamada Pequi, toquei as nuvens, dancei sobre as águas ao som das ninfas, atravessei um arco-íris, entrei dentro de um vulcão e vivi inúmeras aventuras que eram nossas, somente nossas. Não estive em perigo nenhuma única vez quando estava em sua presença. Muitos a odiavam, mas também temiam seu nome. Era comum que a reverenciassem por ser uma grande heroína. Chorei muitas vezes, vendo pela perspectiva de seres encantados ou de pessoas comuns as narrativas sobre o quão grandiosa a minha mãe tinha sido. Elas sempre diziam que a minha mãe tinha feito os sacrifícios mais difíceis para cumprir a sua missão de salvar o mundo; que ela carregava sobre os ombros o equilíbrio entre os deuses. Ainda assim, sendo mais importante do que se podia explicar, para mim ela era apenas a minha mãe, com seu sorriso terno, seus abraços acalentadores e cheios de amor, e os olhares sérios, muito repreensivos quando havia necessidade.


A minha mãe chorou muito pela morte do meu pai. Muitas vezes choramos juntas, sentadas na torre, enquanto eu contava as histórias de nossas vidas. Ou quando ela lia uma das milhares de cartas que ele deixou em um baú para ela. Às vezes ela lia em voz alta, outras vezes silêncio. Em algumas ocasiões suas bochechas ficavam rubras e ela me lançava olhares furtivos, cheios de vergonha. Eu tinha certeza que o conteúdo era tórrido, por isso sempre guardava o sorriso.


Foi naquele tempo do casamento que Valenius me levou para conhecer A Árvore. Era a mesma Árvore com a qual eu sonhara muitos anos antes, de onde caíram dois frutos. Tive certeza de que os frutos eram os meus dois filhos e entendi todo o sonho todo. Naquela ocasião a Árvore se encheu de minúsculas flores de cor rosa e as fez chover sobre nós dois, enquanto eu observava, de mãos dadas com o meu amor, o espaço cheio de verde, ar puríssimo e relva suave. Eu e Valenius dançamos naquele lugar, celebrando sozinhos o nosso amor e a nossa boa sorte. Éramos felizes, saudáveis e completos.


Vovô Barakj me elogiou muito pelos projetos executados e ganhos financeiros crescentes. Analisou criteriosamente as execuções de projetos em buscas de possíveis falhas que pudessem me atrapalhar no futuro, mas nada encontrou. Elogiou a administração feita por mim e por papai. E se gabou da grande inteligência que vinha dele e da educação fundamental que ele mesmo vistoriou de perto. Era o mesmo de sempre, eu estava grata por isso.


***


No dia marcado, sob o entardecer, minha família, os amigos e os Luppus estavam perto da árvore. Os Luppus vestidos com seus melhores trajes tradicionais, feitos de couro, bordados, ornados com dentes dos ancestrais e flores. Puro requinte em forma de tradição. A Árvore estava verde e deixava chover pétalas vermelhas e miúdas sobre nós. Minha mãe chorava, com suas grandes asas abertas enquanto segurava Auri no colo. Arge estava encantado com tudo. E Valenius me esperava, vestido com uma calça branca e colares ancestrais sobre o peito nu. Os cabelos longos e soltos, cheios de pétalas e um olhar apaixonado.


Aos poucos aquele espaço se tornou repleto de seres elementais e outras criaturas mágicas, silenciosas, que vieram assistir de perto o nosso enlace.


Eu caminhei de braço dado com vovô Barakj, usando meu longo vestido de folhas e flores brancas, levemente cintilantes, feito pela minha mãe. O vestido tinha mangas longas da junção de duas folhas compridas, mas deixava os ombros e colo nus. Não tinha espartilho, nem costura, ainda assim a saia tinha um pouco de volume e era fluida, se agitando com os movimentos. A minha coroa era de flores de ouro, a mesma flor que Valenius me deu para declarar seu amor, intercaladas com dentes dos ancestrais, que apontavam para o céu. Foi dada por Lunais e colocada sobre meus longos cabelos soltos. Minha mãe ladeou o caminho com pequenas labaredas de fogo. E o fogo foi até A Árvore, subiu por seu tronco e se enlaçou em todos os galhos, brilhando sem queimar as folhas, explodindo para o céu em cintilância. Mamãe também ergueu grandes colunas de pedra, onde fez crescer cipós cheios de flores mistas, No topo de cada coluna queimava uma grande chama que escondia o pequeno apoio do teto de brilhante que ela tinha feito para nos cobrir, por puro capricho. O brilhante era vazado, tinha formato de trepadeiras entrelaçadas, e deixava ver a noite, as estrelas. Ele brilhava muito. Havia muitas estrelas de fogo flutuando sobre as nossas cabeças, iluminando a todos abaixo do teto. Minha mãe espalhou o ar perfumado entre nós, com leve cheiro de baunilha e canela, aquecendo os nossos corações pelo olfato.


A cerimônia foi breve. Juramos o nosso amor, bebemos de um cálice e apresentamos os nossos filhos para A Árvore. Também juramos para ela que jamais deixaríamos a nossa união morrer.


Eu me senti muito abençoada enquanto pensava em papai e sua visão de mundo. Ele sempre esteve certo em amar como amou. No mundo nós só deixamos as benfeitorias e as histórias nos corações de quem amamos.


Depois veio a festa. Observei vovô incomodado, mexendo o nariz e cheirando Auri. eu sabia que aquele dia ia chegar. Fiz um sinal e me aproximei para ele falar o que estava errado.


— Estou sentindo um cheiro bem característico e conhecido... — Ele disse antes de eu abrir a boca.


Jis se aproximou com uma taça de vinho em mãos e um sorriso misterioso.


— É mesmo, vovô? Qual cheiro? — Fiz-me de inocente.


Valenius tinha explicado que cedo ou tarde ele estaria perceptível no sangue de Auri.


— Um cheiro de cachorro molhado que vem de lobo. Porém, tem algo mais velho no fundo disso... Um cheiro de... — Ele me encarou com as pupilas dilatadas e incrédulo. — Strigoi?


Eu sorri e Jis ergueu um brinde silencioso. Sim, todos os Luppus eram, na verdade, strigois. Eles, há muito tempo, milênios, tinham domado a sua natureza bestial e sanguinária para viver em paz. 

Ana Merak - Dever e HonraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora