ANA NO ESPELHO

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A primeira imagem que vi ao acordar, foi o meu pai sentado ao pé da cama. Ele olhava para o meu rosto, preocupado, enquanto segurava o vestido que eu usara antes, quando tentei suicídio. Vi que seus dedos estavam enfiados nos buracos onde as presas de Valenius atravessaram. Meu coração acelerou. Se eu contasse o segredo do meu guarda pessoal, imediatamente entregaria o meu.

A consciência da realidade bateu em mim como uma grande tora de madeira, me jogando outra vez para a beira do abismo. Eu sentia revolta, vontade de chorar e medo de que Valenius abrisse a boca também.

Perscrutei o quarto e vi ele, o meu guarda cheio de segredos, em um canto, me observando, naquele silêncio sem emoção que, para mim, tinha um novo significado. Muito profundo, ameaçador, misterioso e fantástico.

— Minha filha, você acordou? — Meu pai chamou para ter certeza.

Fiz um gesto fraco com a mão. Sentia meu corpo todo dolorido e inchado. Uma breve aventura me deixou incontáveis marcas.

Meu pai se levantou de onde estava, moveu-se dois passos e se sentou ao meu lado. Ele fez carinho nos meus cabelos espalhados sobre a fronha do travesseiro.

— Você ouviu, sim? — Perguntou enquanto me transmitia ternura com o olhar. Desviei os olhos para que ele não lesse o que passasse por eles.

— Sim. — A palavra quase ficou entalada na minha garganta. Eu estava magoada.

— Eu queria contar de uma maneira diferente, Ana. — Ele sussurrou com algum pesar. Estava cheio de tato para iniciar a conversa. Eu entendia seus motivos, mas não queria abrir mão do meu processo de indignação porque eu merecia sentir e passar pelo menos por aquilo, pelo sofrimento.

— Era uma chance única de vê-la, e eu perdi. — As lágrimas desceram grossas e outra vez fui inundada pelo sentimento de derrota. Soterrada pela vontade de não existir. — Eu perdi, por uma maldita viagem que foi terrível. Eu poderia ter ficado aqui, com você...

Enxuguei as minhas lágrimas com as costas da minha mão.

— Você estava cansada. — Ele concluiu. Não teve muito sentido para mim.

— Sim? — Perguntei sobre a afirmação que na verdade representava o que eu sentia, mas não encaixava no contexto da conversa. Por fim, eu apenas aproveitei para admitir: — Sim.

— Você dormiu por três dias. — Ele revelou. A partir dali a sua fala começou a ter sentido. Não somente ela, como toda a percepção que ele tinha da situação. — Na verdade, eu já estava muito preocupado. O seu avô foi buscar um médico na cidade mais próxima.

— Três dias... — Entendi porquê Valenius estava no canto do meu quarto ao invés da casa dele. A folga já tinha passado. Devia ser esse o motivo de eu estar fraca também, porque eu não me alimentava havia três dias. Até mais, se contasse o tempo da viagem.

— Como seu vestido rasgou daquela maneira? Por que você estava caída no chão? — Meu pai analisava cada mísera reação que eu tinha, por isso me segurei para não olhar para Valenius.

Porém, eu sentia que o maldito estava sorrindo. Algo mudou entre nós. Uma mudança muito maior do que um mero pronome de tratamento.

— Honestamente, eu não sei. Não me recordo. Eu só estava ferida demais por perder a chance de ver a minha mãe. — Suspirei. A mentira e a verdade em uma única afirmação.

Vi nos olhos do meu pai que ele não acreditava e ia investigar.

— Como ela está? Como a minha mãe está? Ela se lembra de mim? — Perguntei, finalmente. Era o que eu queria saber desde o começo, mas tinha medo das respostas.

Ana Merak - Dever e HonraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora