PASSANDO A LIMPO (PARTE 2)

94 16 293
                                        

— Em resumo, meu pai contratou uma professora que transformou a minha vida em um inferno, afastou meus amigos, se envolveu com o meu progenitor e enquanto tudo isso acontecia eu não conseguia mais identificar quem eu sou e nem qual é o meu verdadeiro valor. Quero dizer que, a minha mãe é incrível, mas eu não sou. Eu não tenho utilidade. E nem consigo ter porque não conheço o mundo e a vida como as outras pessoas, então, por mais que eu faça o que está ao meu alcance, nunca funciona bem. Há feridas que não se curam e outras novas se abrindo. — O nó na garganta voltou e a minha voz ficou engasgada. — Eu não quero errar, mas erro o tempo todo. Eu quero a minha mãe.


Finalmente a verdade estava sobre a mesa, desnuda, para todos verem. Tudo era sobre a minha mãe. A falta que ela fazia, a pessoa incrível que ela era e o fato de eu não ser como ela e nem tê-la comigo.

Lunais se levantou de sua cadeira e me abraçou apertado. O abraço mais reconfortante de todos.

— Está tudo bem, criança. É assim que uma pessoa normal se sente na sua situação. Não há confusão nenhuma. — O tom dela me fez chorar ainda mais. Ela me acolheu. Todas as pessoas tinham me mimado, me prestado serviços e até me ajudado, mas aquela era a minha acolhida sincera vinda de uma mãe.

Eu a abracei de volta, aproveitando aquele colo que era tão importante para mim.

— Eu só quero que a confusão acabe e minha vida seja normal. — Falei aos prantos, me engasgando com as palavras.

Ela me soltou e olhou nos meus olhos.

— A confusão faz parte da vida. O mais importante é que você conseguiu se unir com pessoas que estão com você. Assim, você ainda fará muito pelos outros. Não se engane, Ana. E se quer saber, tenho certeza que logo a sua mãe aparece para te ver. — Ela me abraçou outra vez.

— Será que ela vem? — Perguntei, buscando esperança.

— Sim, ela vem. Uma vez eu a vi, sabe? Fiquei admirada com o fato de que ela tem longos cabelos prateados e pele quase dourada de cintilância sobrenatural. — Lunais se afastou um pouco de mim e fez uma pose altiva. — E ela andava assim, como uma rainha do mundo, com sua postura forte de guerreira. Os olhos dela tinham fogo queimando vivo. É uma imagem e tanto. Digo mais! A sua mãe é muito conhecida em todo o mundo. Até o amor dela pela família. Ela vai voltar, pode esperar. E vai ser quando você menos esperar. É assim que essas coisas são.

— Eu nunca perdi a fé, mas às vezes eu fraquejo. — Admiti.

— Você é humana e é assim que humanos são. — Fortarius sentenciou.

— O que isso significa? — Pensei em voz alta.

— A chuva parou, vamos fazer o jantar? Antes que escureça. — Chamou, despertando-me da questão.

Valenius foi buscar mais lenha, o pai sumiu dentro da casa e eu comecei a descascar alguns tubérculos para cozinhar, enquanto ela picava uma carne seca que eu não tive a ousadia de perguntar de qual animal era.

O jantar foi feito em um único caldeirão, muito diferente da minha casa, e era um ensopado ralo, porém bem temperado. Humilde, se comparado com os banquetes que comíamos no castelo.

Estava gostoso, isso eu não podia negar.

— Está muito bom, não é? É o que as pessoas comem em dias bons de fartura. — Valenius dirigiu-se a mim.

Senti como uma provocação e fiquei envergonhada. Entendi as chamadas de Jis para a consciência do meu avô.

— E nos dias ruins? — Arrisquei-me a perguntar.

Ana Merak - Dever e HonraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora