Após me recolher eu dormi tanto que acordei cedo, no dia seguinte. Eu tinha um histórico de sono pesado, mas às vezes a minha natureza se superava. Felizmente para mim que eu não era uma Julieta, pois acabaria por matar o meu Romeu e a minha família também.
A manhã nasceu nublada, anunciando a chegada da nova estação. Olhei pela janela, sentindo um certo cansaço apenas por existir, e vi o bosque com um pouco de neblina, vazio. Enrolei-me em uma roupa quente e desci para aproveitar o cheiro do orvalho enquanto me lembrava da festa épica que tinha sido o meu aniversário. Caminhei até o jardim e sentei em um banco onde havia visibilidade para as janelas do castelo. Eu não queria causar problemas, então era melhor estar onde me achariam com facilidade. O banco estava um pouco gelado e senti a minha bunda molhada, mas ignorei porque a vista me proporcionou ver que a natureza já fazia seu movimento para se renovar. Ou para dormir. Enfim. O tempo passa rápido como uma carruagem bem aparelhada. Inspirei fundo e comecei a pensar naquilo que eu evitei ao máximo: a presença de minha mãe.
Por muito tempo acreditei que ela voltaria, e ela voltou. Era uma mulher de palavra confiável. Forte. Decidida. Porém era também um pouco inocente quando se tratava de nossa família, pois aceitou as mentiras de vovô e papai sem questioná-las. Era uma passividade escolhida ou ela acreditava mesmo que sua ausência geraria em mim uma frieza descomunal para aceitar tudo sem ação enérgica? Senti os olhos marejados e os cerrei com força. Não queria chorar e não queria que o meu pai me visse chorando. Lembrar deles juntos me fez entender o que era o amor romântico em sua forma mais pura. Papai não olhava com rancor, decepção ou estranheza. Não. Ele a fitava com um calor diferente, familiar, como se ela sempre estivesse ali ao lado dele, amando-o. Apenas o Altíssimo sabia o quanto meu pai sofreu pela sua ausência. Eu não tinha ideia, mas ao vê-los juntos... Eu nunca senti aquilo e não podia dimensionar. Talvez nem os monges fossem tão devotos quanto o meu pai era. E não era porque a minha mãe exigia isso dele, mas por natureza. Eles apenas funcionavam daquela maneira. Eram o encaixe perfeito um do outro.
Eu já beijara algumas bocas, contudo nenhuma delas pertencia a alguém que me faria ter aquele tipo de postura.
O pior lado era ver como a minha mãe lidou comigo. Ela apenas agiu de forma natural, como a mãe que ela era. E eu aceitei por ser como deveria ser. Doía saber que nossos laços permaneciam intactos apesar do tempo e da distância porque a frieza teria o poder de amainar a dor. Se ela fosse menos calorosa eu destruiria toda a espera e expectativa e seguiria com a minha vida. Mas não... Ela era exatamente a mãe de meus anseios, meus devaneios e da minha realidade. A minha família permanecia inteira, com uma sina pesada.
Eu queria um amor verdadeiro como aquele dos meus pais? E se no fim eu o fizesse sofrer pela força de minha posição ou algo do tipo? Eu só sabia que não desejava fazer uma pessoa sofrer como o meu pai sofria. Ou como eu mesma sofria. Se eu não fosse capaz de oferecer presença, era melhor estar completamente ausente.
Avistei um par de pessoas dobrando a esquina do castelo e se aproximando na névoa que se dissipava. O calor do sol já me alcançava. Tratava-se de Bogdana e Constantin.
Eles me cumprimentaram com gestos antes de palavras.
— Viemos para avisar que os convidados que estavam em nossa casa já se foram. — Bogdana, com seu ar misterioso, informou sem dar voltas nas ideias. Era clara em sua postura, não gostava de perder tempo. Papai era um grande fã dela.
— Podemos nos sentar consigo? — Constantin pediu com seu jeito galante de gestos suaves.
Arredei para dar lugar a eles.
— Obrigada pela amizade de vocês. Esse evento foi muito cansativo, então vos convido para a comemoração que a vila fará. Nessa estaremos mais livres. As pessoas são humildes, claro, porém estão organizando um grande evento com jogos e disputas. — Contei por alto.
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Ana Merak - Dever e Honra
FantasiAna Merak descende de uma família que se encontrou com a magia em condições adversas. A mãe de Ana era humana, mas foi recrutada para lutar pelo equilíbrio do mundo. Em meio ao caos da vida, a prestigiada Lira Merak deu à luz suas filhas, e teve uma...
